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Conversa de Navegadores

Uma vez um amigo gozou comigo por falar – quase sempre que nos encontramos – dos navegadores que utilizo . “Conversa de Browser,” chamou-lhe ele. Foi dito com humor e não levei a mal, mas todo o humor dá sempre algo em que pensar.

Eu vivo na Internet. A Internet é o meu local de trabalho e de lazer. É onde me educo acerca do que se passa no mundo, e é onde aprendo a fazer coisas novas, ou a fazer melhor as coisas que sei fazer.

Então, o veículo que uso para aceder à internet é uma das coisas mais importantes na minha vida. Importante, não fundamental. Não morria se tivesse que usar um navegador mau. Mas era muito menos produtivo.

É difícil arranjar um paralelo. Poderia dizer que o carro é um bom ponto de comparação, mas o navegador é um organismo vivo, em constante mudança e actualização. Para mais, experimentar outros e trocar é fácil. O automóvel não muda (excepto para pior) e normalmente, depois de escolhermos um, estamos encravados com ele durante vários anos.

O que quero de um navegador? Que seja rápido. Que facilite a leitura de texto na internet, e a escrita também. A visualização de vídeos também é importante. Que possa alternar entre computador e telemóvel (e vários computadores) sem perder o fluxo do trabalho. E, claro, que não tenha aqueles anúncios irritantes.

Actualmente estou a usar o Brave, um navegador que se foca na privacidade e velocidade; usa o esqueleto do Chrome do Google, mas sem todas as porcarias que o Google usa para recolher a nossa informação. É modular e dá para acrescentar coisas – da mesma forma que no Chrome – e a única coisa que não gosto muito é que só sincroniza os Favoritos entre dispositivos. 

Estava a usar o Opera, mas a funcionalidade de ter mensagens em janelas individuais não funciona no MacBook Air. Talvez volte a tentar.

O que usam vocês?

A Arte e a Multidão

Adoro a idea de crowdfunding. A premissa é a seguinte: uma pessoa tem uma ideia, e expõe essa idea às massas, da melhor forma que conseguir; um plano, um video onde explica e faz visualizar o conceito, ou mesmo um protótipo.

A partir daí, as pessoas que acompanhem as plataformas de crowdfunding podem votar na idea da melhor forma possível: com a carteira. Cada interessado se compromete a pagar um determinado valor para ver a ideia acontecer; se o total de pagamentos prometidos chegar ao montante que o criador pensa ser necessário para finalizar o projecto, a plataforma de crowdfunding entra em acção e recolhe os fundos.

Criar algo custa dinheiro. Há produtos tecnológicos que exigem investimento em pesquisa e produção industrial. Mas mesmo uma produção (quase) individual, como um livro, pode ficar pronto muito mais depressa e com maior qualidade se o autor não tiver que se preocupar em arranjar dinheiro para pagar a renda. 

Normalmente, um criador procuraria empresas no ramo em que actua, para investir no projecto. Mas a verdade é que o jogo de números raramente bate certo. Um produto que tem um mercado de nicho ( digamos, 100.000 utilizadores) não vai interessar a uma companhia que se rege por produtos que vendem milhões.

O meu primeiro livro é um bom exemplo; vendi uns pares de milhares de cópias. Para uma editora, isso não é o suficiente para me dar um adiantamento para o próximo livro. Mas para mim, deixou-me sobreviver durante quase um ano, em que me consegui focar mais na escrita. Uma ninharia para uma empresa é uma pequena fortuna para um indivíduo.

É claro que as coisas nem sempre correm certo. É importante saber que quando apoiamos um projecto assim, estamos a apostar numa ideia, não a comprar um produto. Há o risco do projeto falhar. No mundo literário, não acontece tanto – os livros são escritos; podem é não ser bons. Mas numa outra área que me apaixona, a dos videojogos, é relativamente comum haver projectos que não chegam a lado nenhum – até mesmo os que são gerados no seio das grandes empresas.

Nunca tive esse azar; os meus desapontamentos no crowdfunding foram poucos, e um pouco mais caricatos. Num deles, o produto nunca chegou até mim, perdeu-se nos correios. O outro foi um desapontamento maior: o jogo Bloodstained, por um dos meus criadores favoritos, Koji Igarashi. 

O jogo em si ficou fantástico, mas sendo lançado para múltiplas consolas, nem todas as versões ficaram em condições. Eu tinha optado pela versão Switch (porque gostava da idea de o jogar numa consola portátil) e tive o azar de ser essa a versão que não foi testada adequadamente, e está cheia de problemas técnicos ausentes nas outras versões. Eis algo que muito dificilmente escaparia aos departamentos de controlo de qualidade de uma grande empresa.

Mas o saldo é positivo. Há livros que, de outra forma, nunca teriam sido escritos, documentários que nunca teriam sido filmados, videojogos que nunca teriam sido produzidos, invenções que nunca teriam saído do papel. 

Isso vale um par de desapontamentos pelo caminho.

Fotografia: gro57074@bigpond.net.au Flickr via Compfight cc

Competição Cerrada

Hoje de manhã, estava no jardim/terraço da casa onde estou a ficar com uns amigos. Tem uma excelente vista para a vila no vale, e gosto de passar alguns minutos depois de acordar a observar a vila a despertar.

Ás 7 da manhã, comecei a ouvir tocar um sino, e dei por mim a tentar perceber que horas eram (apesar de já o saber). É porque me chamou a atenção a cadência invulgar, era difícil de contar as badaladas. Na realidade, o que se passou foi o seguinte: o sino da igreja estava a tocar uma pequena melodia, e só depois deu as badaladas.

Seguiu-se outra igreja, mais próxima. Esta fez uma melodia muito mais breve e menos elaborada, antes de dar as sete. 

Imagino o padre (são os padres que fazem isto, ou têm uma pessoa especializada, um tocador de sino?!) a acordar de sobressalto com os sinos da outra igreja, e ir a correr para a campânula, já atrasado, ligeiramente envergonhado por não dar as sete antes da concorrência. Mas mesmo assim, arranja tempo para um pouco de melodia no início.

Não sei se nada disto funciona assim. Não sei se há competição intra-paroquial. Não sei se dar as horas à hora certa, se é uma coisa que importa aos padres. E provavelmente não seria difícil de descobrir – mas há dezenas de outras coisas que não sei, e que não seriam difíceis de descobrir.

E eu gosto de saber coisas. Mas não há largura de banda cognitiva para aprender tudo. Temos que saber escolher. E não há mal em não saber coisas, desde que não tentemos fingir que sabemos.

Histórias são histórias; umas são verídicas, outras servem para entreter. E algumas são ambas as coisas, mas raramente por intenção.