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O Inimigo Invisível

A única forma de combater um inimigo invisível e silencioso é assumir que ele está em todo o lado.

Num mundo em que esse inimigo existe, os sábios passam por paranóicos, e os racionais e moderados vivem muito pouco.

O inimigo invisível não tem face; por isso, é difícil odiá-lo apaixonadamente.

É difícil encontrar a motivação para combater todos os dias uma coisa sem braços e pernas, sem garras e presas.

Estamos habituados a travar as nossas guerras com armas e punhos, com gritos e palavras. Mas nada disso vale face ao inimigo sem braços nem pernas, sem garras e presas.

Um inimigo destes combate-se por privação. 

Combate-se salgando os campos para ele não ter que comer. 

Combate-se queimando as florestas, para ele não poder respirar.

A comida que este inimigo consome, e o ar que ele respira, somos nós.

A forma de o combater? Através da disciplina.

As vitórias são diárias, mas não satisfazem. A prevenção, o dia sem perder a batalha, não dá sensação de conquista.

Acerca de ganhar, nós percebemos. Um jogo em que o objectivo é não perder, isso é menos familiar.

A disciplina é a de saber que este é um jogo em que a única forma de ganhar…

É aguentar até ao final do jogo, sem perder.

Pintura: “A intercessão do Beato Bernardo Tolomeo pelo fim da praga em Siena” por Giuseppe Maria Crespi

2020, o Ano do Velho

Já comentei várias vezes – habitualmente quando escrevo sobre videojogos – que a nossa cultura tem um fetiche pelo novo.

Acho cada vez mais que é um condicionamento cultural e capitalista – somos incentivados a falar e a ficar excitados pelas coisas novas, porque as coisas novas são, por norma, mais caras.

E atenção, eu sou um fã de capitalismo. Não gosto é de me sentir manipulado.

Este ano, decidi fazer uma experiência: nada de videojogos novos, nem de livros novos. 

Se comprar livros ou videojogos novos em 2020, serão alguns que foram publicados em anos anteriores. (Ou, no caso dos videojogos, de remakes de clássicos que já sei serem importantes para mim.

A minha teoria sempre foi de que a melhor arte é intemporal. Que o jogo ou livro com 5 anos, se é mesmo bom, será bom hoje também. Afinal de contas, para mim será novo.

Serei capaz de manter esta estratégia, fã de livros e videojogos que sou? Não sei. Vamos descobrir! 

Pintura: “O Banquete de Sífax” por Alessandro Allori

Alguém Se Lembra dos Fóruns?

Tenho um grande carinho pelo velho “fórum” da internet. 

Foi nos fóruns do Sapo (concretamente, na GameOver) que comecei a interagir com outras pessoas online. 

Foi nesse fórum que comecei a escrever sobre videojogos – a actividade que mais veio a definir a minha vida pessoal e profissional.

Um espaço, uma comunidade, pode mudar uma vida. Mudou a minha.

Mas hoje não conheço muitos espaços equivalentes. As alternativas modernas – Reddit, Facebook, Twitter – parecem mover-se todas muito rápido, estar sobrelotadas.

Os antigos fóruns pareciam salas de estar virtuais, onde se tomava café e se falava com um grupo de pessoas com interesses comuns. As redes sociais…. Apesar de estarem tão mais associadas à nossa identidade pessoal, conseguem ser bem menos íntimas.

Ainda há alguma experiência “tipo fórum” por aí?

Pintura: “Vista do Forum em Direcção ao Capitólio” por Giovanni Paolo Pannini