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Véspera de Ano Novo, 2018

Um dos livros mais interessantes que li em 2018 foi o romance autobiográfico “Apenas Miúdos” por Patti Smith.

Às vezes há frases que ficam conosco, mesmo que não tenham tido especial significado no livro. Quase de passagem, Patti partilha um ditado que herdou da mãe: “O que quer que estejas a fazer no primeiro dia do ano, é o que irás fazer durante o resto do ano.”

Esse frase ficou comigo. Não faz sentido, de uma forma racional. Mas quando uma frase nos salta assim do papel e se aloja na nossa cabeça, há que a respeitar. Direi mesmo: ignoramo-la por nossa própria conta e risco.

Amanhã é o primeiro dia de 2019. O que te irás encontrar a fazer?

A Passagem do Tempo

Li este ano (não me lembro em que livro) que nos devemos comparar não com o que outros são hoje, mas com quem fomos ontem.

É um bom conselho. A mensagem: não importa onde estamos, desde que estejamos a melhorar.

Mas mesmo por essa métrica, há duas datas que me custam, todos os anos. São o meu dia de anos, e a passagem de ano.

Se calhar falta-me humildade. Mas não consigo olhar para a pessoa que era o ano passado, e ficar satisfeito com quem sou hoje. Mesmo observando que estou num sítio melhor, que houve progresso – nunca é o progresso que quero. Sou um constante insatisfeito. Sinto sempre que podia ter feito melhor.

Não tenho grande lição moral a tirar disto. Prometi a mim mesmo que escreveria algo hoje, e estou a cumprir essa promessa. Se o leitor sofre do mesmo mal, lamento, mas não tenho solução.

Se lhe servir de alguma coisa, saiba que não está só.

Máscaras

O termo em voga hoje em dia é “lifestyle design”, sobretudo nos meios de comunicação online.

Há uns anos, era “desenvolvimento pessoal.” Ainda hoje são lançados livros sob essa chancela. Os livros, afinal de contas, para melhor e para pior (mas fundamentalmente para melhor) movem-se mais devagar do que a internet.

Antes disso, era “auto-ajuda.” Mas deixou de ser, porque neste mundo moderno, só os fracos precisam de ajuda.

Há muito, muito tempo – no tempo em que os animais falavam, como costumava dizer a minha avó – o termo era ainda outro:

“Filosofia.”

A arte que levava o homem a conhecer-se a si próprio, a descobrir os seus valores, o caminho pelo qual se podia orientar no mind, segundo eles.

A reputação da Filosofia foi destruída pelas escolas, mas não conseguimos passar sem ela. É importante demais, é essencial demais, é único manual (isto é, conjunto de manuais) que temos para viver.

Por isso camuflamo-la. Vestimos-lhe outros trajes, cobrimos-lhe a face com máscaras religiosas, espirituais ou mesmo comerciais (ou qualquer combinação das três) e damos-lhe outros nomes. 

E serve, vai servindo, mas perde-se sempre qualquer coisa com a tradução. Porque cada máscara vem com a sua própria bagagem.

Quantas mais disciplinas sagradas terá a escola violado?