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Combustível Para a Mente

Ontem, “inventei” uma receita. Não digo um prato novo, porque nada nele é especialmente desconhecido. É ramen de peixe e marisco – mas os ingredientes, as quantidades, os temperos… Esses foram de minha autoria.

Mas o interessante é como a idea me surgiu. Não foi porque estava à procura. Veio do nada, como um ataque súbito de inspiração.

Só que não veio assim, não completamente. 

No dia anterior, vi ser servido um linguini de camarão com coentros. Esse foi um dado. Não me levou a pensar em nada, mas ficou registrado algures cá dentro.

Ao almoço, no dia em que me surgiu a ideia, pedi um pouco de maionese para acompanhar a batata frita que veio a guarnecer o meu bife. Não tinham – a empregada de mesa perguntou-me se em vez disso podia trazer o molho da casa. “Porque não?” Pensei eu. 

Era esse o ingrediente que faltava. 

Ao provar e tentar detectar os ingredientes que faziam o molho, senti um travo a marisco. De repente, veio-me à cabeça a idea. Sabia o perfil de sabor que queria, e sabia que base usar. O resto encaixou tudo a partir daí.

Não se têm ideas – seja para pratos, livros ou musicas – por se estar sentado a tentar ter ideas.

As ideias surgem por inspiração. E inspiração é como uma fogueira – exige combustível. É preciso consumir. É preciso experiências.

São as experiências que alimentam a chama da criação.

Citação IV

“Se estás arrependido de me ter beijado – retira o teu beijo.”

— Provérbio, “Caravan of Dreams” por Idries Shah

Todos mudamos. Se não mudássemos, era muito mau. Era sinal de que não aprendíamos nem crescíamos. 

A mudança – de gostos, de opiniões, de paixões – não é sinal de uma mente fraca. É sinal de uma mente adaptável, de um espirito que busca a compreensão e a verdade, que não se deixa prender no dogma da pessoa que era ontem.

Mas continuamos responsáveis pelas decisões e acções do nosso eu anterior, da pessoa que fomos no passado. As acções perduram, mesmo que nós já não sejamos a pessoa que éramos quando as tomámos.

As marcas que deixamos nos outros são mais difíceis de alterar do que as pessoas que somos. As nossas acções sobrevivem à morte das nossas personalidades.

Toma-as com devido respeito.

Tensão

Não sei o que se passa quando estou numa reunião a tentar explicar coisas a pessoas.  Saio tenso. 

Fico a pensar se terei sido gentil, ou se terei sido agressivo. No momento em si, não me sinto zangado – mas fica a tensão quando saio. Sinto-me fechado, com os sentidos em alarme. Como se tivesse acabado de sair de uma luta ou de um acidente de automóvel. Como se tivesse acabado de assassinar o Padrinho e a família estivesse à espera em cada esquina, para extrair o preço de sangue.

Acho que o que me falta nessas situações, é estar no momento. Estou sempre a tentar pensar dois passos à frente, a tentar antecipar respostas e perguntas e saber como as seguir. 

Sei que não é desta forma que faço o meu melhor trabalho. O meu melhor trabalho, faço-o estando presente. E fico menos tenso. Melhor trabalho, menos tensão. Não há desvantagem. Mas agir assim não é natural. Exige práctica.

Amanhã é outro dia para practicar.