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A Internet Selvagem

A internet costumava ser como o Oeste Selvagem – um mundo prenhe de possibilidades, mas sobretudo, de liberdade. 

O preço a pagar por essa liberdade era que, por vezes, aconteciam coisas más. Era mais fácil viver-se como um fora-da-lei nesse mundo; era mais fácil  ser um predar nos mais fracos, nos mais vulneráveis. E por isso, o oeste foi sendo domado.

Mas a semelhança acaba aí. As “autoridades” da internet – em muitos casos companhias privadas – não estão concentradas em tornar a internet num lugar mais seguro. Praticar o crime na internet continua a ser quase tão fácil como era há 10 anos.

O que é muito mais difícil é trocar ideias. Ou fazer comédia. Ou mesmo ser ofensivo e mal-educado (mas não violento) só porque nos apetece.

Sabemos que o rei é mau quando a primeira pessoa a ser executada é o bobo da corte.

Brechas – 3 – Inferno

Alison abriu os olhos, e tentou logo sentar-se, elevar-se sobre a superfície da água da banheira, mesmo antes de formular a ideia de que tinha adormecido no banho. 

Seguiu-se ainda maior pânico: por mais que tentasse, não conseguia alcançar a superfície. Era como se a banheira se tivesse tornado um poço sem fundo.

Cada vez mais aflita, a engolir cada vez mais água, a sentir-se a ficar sem ar, o instinto tomou conta dela. Sem entender como o conseguia fazer numa banheira, Alison começou a nadar em direcção à luz. 

Sentiu um alívio enorme quando quebrou a superfície, ao inalar lufadas de ar quente. Por momentos, deixou-se ficar à beira da água, com os braços apoiados na borda, tronco ainda submerso, a alternar entre cuspir água e a respirar fundo. 

Só então notou que estava apoiada não na borda da sua banheira, no seu apartamento, em pedra dura, rude, que lhe arranhava os cotovelos. Reflexivamente, a jovem afastou-se, deixou-se flutuar no lago, e os olhos viram o céu pela primeira vez. 

O céu estava a arder.

Não havia Sol. Não haviam estrelas. Apenas um laranja incandescente, pontuado por nuvens negras como carvão.

Em seu redor, as cores do por-do-sol do sol que não existia cobriam tudo o que a vista alcançava. Rocha cinzenta e preta até o horizonte, sem sinal de vegetação ou de qualquer outro tipo de vida.

Isto não pode estar a acontecer, pensou. Onde estou eu? Só pode ser um sonho. 

Mas ela estava muito longe daquele estado semi-consciente de descontrolo controlado que sentimos quando sonhamos. Não, ela sabia, em pleno, no fundo da sua alma, que estava bem acordada. E isso assuntava-a mais do que o afogamento.

Voltou a repousar os braços na borda; nua, perdida, sem nada semelhante a civilização por perto. Começou a chorar. A água do lago era quente, e o ar era abafado. Mas o seu pranto foi logo interrompido por um som sibilante. 

À sua frente estava uma serpente, a cabeça levantada ao nível da de Alison. Por momentos, cruzaram-se os olhos de réptil e humano, e Alison sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha. Depois, uma dor intensa na bochecha direita. 

O mundo começou a girar. A jovem estava de costas, estava a rebolar na costa do lago quente, a gritar, a tentar frenéticamente agarrar o corpo enorme, o corpo escorregadio do animal que lhe estava cravado na cara. 

Alison sentia o sangue escorrer-lhe pelo queixo abaixo, para o pescoço e para os seios, a dor intensa na bochecha, sentia-se cada vez mais fraca e pesada, até que sucumbiu novamente à inconsciência.

O Primeiro Dia Do Ano

Haverão outros dias para deixar aqui textos na senda do que se tornou o estilo habitual – e quiçá, com algumas experiências à mistura.

Mas neste primeiro dia do ano, quero usar este espaço para vos agradecer, a vós que aqui vêm ler, ou que subscreveram a lista de email, ou que seguem no Facebook ou no Twitter.

Obrigado.