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Preservar Obras, ou Preservar Memórias?

Ando sempre num vai-e-vem com os meus amigos dos videojogos, quando falamos acerca de como preservar as experiências de que gostamos.

É fácil reviver a experiencia de ler um livro, ver um filme, ou apreciar uma pintura. Nos tempos modernos, seria preciso um cataclismo para perder acesso a essas obras.

Já os jogos estão muito mais ligados ao período em que são lançados. São feitos especificamente para máquinas da época, e raramente correm nas suas sucessoras. Alguns transitam da sua era para as máquinas mais recentes, mas apenas os mais populares. A maioria da história dos videojogos não é jogável nas máquinas que se podem comprar hoje numa loja.

Mas os jogos online criam outro nível de dificuldade na preservação. Quando jogo World of Warcraft com amigos de longa data, ou Destiny 2 com o meu irmão, estou a jogar jogos que não existem inteiramente na minha “máquina”, mas num servidor mantido por uma companhia que só o continuará a fazer enquanto for lucrativo.

E mesmo que por algum milagre a companhia se esquecesse que a sua função é ter lucro, e decidisse manter o serviço activo indefinidamente como um gesto de boa-vontade para com os fãs do jogo, a natureza destes jogos continua a ser uma de evolução constante, e portanto é quase impossível replicar uma experiência passada.

Mesmo quando a Blizzard, a produtora de World of Warcraft, declara que vai lançar uma versão do jogo que simula a realidade do jogo há 13 anos, faltam lá as pessoas. O que fez Warcraft ser uma parte indispensável da minha vida há 13 anos era o bando de aventureiros com que me dava, os amigos e amigas com que travei conhecimento e dei os meus primeiros passos nesse mundo online – e a descoberta de um tipo de jogo que nessa data ainda estava cheio de mistério.

Da mesma forma, não será possível replicar daqui a 10 anos as aventuras que eu e o meu irmão vivemos hoje no mundo de fantasia espacial de Destiny 2. Mesmo que o jogo continue por cá, já não vai ser o jogo que jogamos hoje. E mesmo que os responsáveis por ele lancem uma versão a “imitar” este momento histórico do jogo, eu e o meu irmão já não vamos ser as mesmas pessoas, já não o vamos jogar da mesma maneira.

Não sei se os video jogos serão “preserváveis” no mesmo sentido em que preservamos as obras do antigamente. Um video jogo como Destiny 2 ou World of Warcraft é mais como uma tarde de Verão passada com amigos em volta de uma mesa no Alentejo rural. Ou como o primeiro namoro na escola.

Dá para ter recordações – uma lembrança, uma fotografia, um diário – mas não dá para repetir.

A idea da Bungie, produtora de Destiny, é muito interessante.  Aos jogadores que cumprem certos requisitos – façanhas difíceis de cumprir no jogo, coisas dignas de nota – permitem-nos comprar certas “recordações”, coisas que não estão à venda ao público geral. Medalhas, replicas das armas conquistadas, ou uma t-shirt comemorativa. 

Todas estas coisas têm valor, são de tiragem limitada, mas crucialmente, só têm significado para as pessoas que “cumpriram” esses objectivos. São recordações da viagem e das conquistas no jogo, da mesma maneira que um viajante pode comprar coisas típicas dos lugares exóticos que visita, e a que provavelmente não voltará.

Gostava de ver mais produtoras de video jogos a seguir este paradigma. Aceitem que o videojogo é, mais do que uma peça de arte, uma experiência; que tem mais a ver com uma viagem, uma refeição, ou uma aventura ao ar livre do que com uma peça de museu. 

E concentrem-se mais em oferecer-nos maneiras de recordar essa experiência, do que em sugerir-nos que a voltemos a repetir.

David e Golias

Hoje li um autor de que gosto, escrever algo nas linhas de:

“As pessoas que apoiam a monarquia fazem-nos pois querem abdicar da responsabilidade de ter uma participação democrática.”

Não sou fã da ideia de implantar a monarquia, mas acho que este comentário é muito pouco generoso, e pobre intelectualmente. Por duas razões.

Primeiro: Coloca automaticamente aqueles que detêm uma opinião diferente do autor num nível mais baixo. 

São “aqueles que querem abdicar da responsabilidade.” IE. Preguiçosos e/ou cobardes.  Cria logo uma equação subconsciente: se ser um cidadão responsável é uma coisa boa (acho que estamos todos de acordo até aqui), e se apoiar a monarquia é abdicar dessa responsabilidade, então quem Appia a monarquia é irresponsável. E nós não gostamos de pessoas irresponsáveis, pois não?

Segundo: Se vamos (por brevidade) reduzir uma posição politica complexa a uma única razão, que escolhamos então confrontar a melhor versão do nosso adversário. 

Não duvido que haja quem defenda a monarquia para não ter que pensar. Mas duvido seriamente que a maioria dos monárquicos se enquadre aí. Há coisas generosas a dizer acerca da monarquia, vantagens que tem sobre uma democracia pura. 

Por exemplo, podem-se fazer planos a longo prazo, sem se temer que o próximo governo mude tudo depois das próximas eleições. Isto é algo que é óbvio até para um leigo como eu, depois de pensar 5 minutos no assunto. Certamente que se estudasse um pouco, conseguiria encontrar muitos prós e contras em relação à monarquia.

Caímos na ilusão de que temos mais razão se fizermos burros dos nossos adversários intelectuais ou ideológicos. Não temos. 

Burros ficamos nós, se não tentarmos ver sempre o melhor nos nossos adversários. Não por empatia, ou por fair play, mas porque nos privamos de oportunidades para aprender.

E se o nosso intelecto é tão grande, e as nossas ideias tão sólidas, porque não testá-los contra um adversário à altura?

Por Coroar

Não obstante o que possas pensar ou sentir acerca das leis, geralmente há uma razão pela qual elas são como são.  Talvez tenham ultrapassado o seu propósito original, ou se tornado demasiado rígidas, insustentáveis – não importa, ainda são parte do contrato social.

O que se deve fazer, então, é protestar contra as leis que se consideram injustas, ao mesmo tempo que se as respeitam.

Se vives num lugar onde as leis não podem ser discutidas, mesmo por aqueles que as respeitam, então vives numa tirania. Mas, se usas isso como uma desculpa para violar a lei, estás errado – se te importas mais com o resultado do que com os meios, és um radical.

E um radical é apenas um tirano sem uma coroa.