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Auto-realizável

“Sempre que odeias algo, esse algo retribui o ódio. Isto é verdade para pessoas, situações e objetos inanimados.”

David Cain

Não é animismo, nem é paranoia. É neurologia e psicologia.

Tudo o que é abrangido pela nossa percepção é captado pelos nossos sentidos e filtrado pela nossa mente. E muito do trabalho feito por esse filtro é automático. É por isso que ao leres “elefante cor-de-rosa,” a tua mente acaba de manifestar um paquiderme colorido. 

Para algumas pessoas, terá sido um fantasma quase invisível, apenas presente por um mero instante, exorcizado findo o parágrafo; para outras, ainda não se foi embora. Mas para todos, foi uma criação involuntária que, não obstante esse facto, foi real dentro da vossa cabeça, como um pensamento. E bastou ler um par de palavras.

Se um par de palavras pode gerar um pensamento involuntário, o que dizer de uma emoção forte como o ódio? Quanto da tua realidade é colorida por esse filtro, quando o carregas no centro da tua mente, da tua experiência como ser humano?

O karma é instantâneo – faz, literalmente, parte de nós – e o ódio consome tudo como combustível, até que nada sobra.

Os Atrasos e a Medicina

Por vezes sinto que tenho os melhores pacientes do mundo. Especialmente quando me atraso. “Não se preocupe, doutor.” “Faz parte, doutor.” é o que me dizem. Mas não deixo de me sentir mal com os atrasos

A verdade é que o atraso em medicina é inevitável, mas não devia ser aceite como a norma.

Um bom médico, ou um médico que faça o melhor que pode, vai sempre escolher passar mais uns minutos com o paciente se isso significar que lhe está a dar um tratamento de maior qualidade, mesmo que também signifique que os que estão na sala de espera vão esperar mais um pouco.

As coisas demoram o seu tempo. Há trabalhos de trinta minutos, há trabalhos de uma hora, e há trabalhos de hora e meia e mais. E muitas vezes, só depois de se começar é que se tem uma boa ideia do tempo necessário.

Nesse aspecto, o atraso até pode ser visto como um sinal de qualidade. Noutras vezes, o atraso acontece porque surge uma situação imprevisível: uma criança que não colabora, uma ferida que não pára de sangrar, um ponto que não fica no lugar. Raramente o atraso se dá porque o médico teve vontade de ir tomar café.

Por isso, fico grato pela compreensão dos meus pacientes, que realmente percebem que se fosse preciso, eu também ficaria mais tempo com eles para os atender bem.

Mesmo assim, odeio estar atrasado, e é algo que tento sempre evitar. Porque tenho a noção de que um atraso não é algo isolado – se eu atraso uma pessoa, estou a roubar tempo a todas as outras pessoas que vêm a seguir. E mais, estou a fazer com que essas pessoas se atrasem nos seus afazeres, roubando tempo também àqueles que com elas contam. Os atrasos têm um efeito dominó que atinge muito mais do que os imediatamente envolvidos.

De igual forma, sou compreensivo em relação aos atrasos dos meus pacientes. A vida nem sempre funciona como queremos, e mesmo com as melhores intenções, um acidente acontece a qualquer um. Mas quando o atraso se torna rotina, aí tenho que chamar a atenção, não só por mim mas pelos outros pacientes que são atrasados por causa desse.

No final de contas, o senso-comum e a tolerância é o que tento praticar, e que vejo que a maioria dos meus pacientes pratica. E das raras vezes que me chamam atenção, tento não o levar pessoalmente, porque nunca nos devemos esquecer que o tempo dos outros é tão valioso como o nosso.

Este artigo apareceu na sua forma original na rubrica “Os Segredos da Saúde Oral” do jornal “A Gazeta das Caldas”

Culpa e Responsabilidade

“Todos os teus problemas são tua responsabilidade, independentemente de quem os tenha causado.”

David Cain

É o perigo de distorcer as palavras, é o perigo das palavras mudarem com as eras. Há muitos conceitos que só conhecemos através das palavras. Mas às vezes palavras convergem, e perdemos um significado útil.

Responsabilidade costumava ser algo de valor, algo a confiar a pessoas de valor. Ter responsabilidade era ter poder – era ser reconhecido (ou auto-reconhecer-se) como competente, como em controlo do seu destino.

Mas com o passar dos anos, tornou-se uma palavra suja. Uma coisa para atirar aos outros. “Tu és responsável por [algo mau].” 

Responsabilidade não é o mesmo que culpa. Mas nós fizemos com que fosse. Usámos a palavra de forma errada, e vimos a palavra a ser usada de forma errada, e não corrigimos o erro, e agora uma geração inteira não conhece o verdadeiro significado da responsabilidade – e portanto foge dela.

E se ousamos dizer que uma vítima – de outra pessoa, ou de uma doença, ou de um acidente – é responsável pela situação em que se encontra? Que heresia! Não sofreram essas pessoas suficiente?

Mas são responsáveis. Somos todos. Ninguém pode consertar a nossa vida, as nossas mágoas, por nós. E mesmo as doenças incuráveis ou as mágoas irreparáveis – são da responsabilidade do doente e do magoado?

São. Não são sua culpa – nunca isso! – mas é da sua responsabilidade a forma como confrontam a situação.

Somos responsáveis pelos nossos problemas. Temos que ser. As outras pessoas? Têm os delas.

Pintura: “O Dilúvio” por Miguelangelo Buonarroti