Meditação e Desenvolvimento Pessoal – Inimigos Mortais?

Hoje quando estava a meditar, ocorreu-me uma coisa. Não é só o caso que a meditação me ajuda a ver o mundo em alta-definição. É que a meditação me ajuda a aceitar-me a mim mesmo, como sou.

Isto gera uma certa tensão entre a meditação e o desenvolvimento pessoal.

A meditação trata de estar satisfeito no momento. O desenvolvimento pessoal nasce da insatisfação.

A meditação é acerca de viver o momento presente. É acerca de entender que o aqui e o agora bastam, e que as projecções de passado e futuro em que a nossa mente passa a maior parte do seu dia-a-dia são, quase sempre, a causa do nosso sofrimento.

A meditação também nos dá prespectiva e claridade, e ajuda-nos a ver os nossos excessos.

Já o desenvolvimento pessoal centra-se no futuro. Desenvolvimento pessoal é acerca de visualizar um “eu” melhor como um objectivo, uma situação melhor no futuro, a que almejar, e traçar um plano nessa direcção. Um plano não é mais do que uma sucessão de micro-futuros cada vez mais próximos.

Mais, o desenvolvimento pessoal exige, muitas vezes, excessos. Sacrificios. Analisando qualquer pessoa que tenha alcançado algo de sublime, consegue-se determinar que o sucesso veio do foco num objectivo. O foco vem da capacidade de estabelecer prioridades, e de as seguir. O estabelecimento e seguimento de prioridades exige, por definição, deixar outras coisas para trás. Ou seja, sacrifícios.

É possível, é claro, alcançar alguns objectivos sem excessos. Mas raramente os grandes passos da vida surgem sem um exforço fora do normal, um esforço que deixa cicatrizes.

A verdade é que quando medito, quando consigo fazer uma sessão de meditação mais profunda, sinto-me menos interessado nos meus objectivos. Não é um desinteresse apático; é mais um “as coisas já estão bem, o objectivo não é assim tão importante.”

Isto assusta-me um bocado. Por muito que seja bom estar satisfeito com o momento presente, gosto de zelar pelo momento presente do Luís Futuro.

Somos seres feitos de dicotomias. Em nós vivem as trevas e a luz, o caos e a ordem. Esta dicotomia – entre a paz de viver no presente e a tensão necessária para um futuro melhor – é mais uma imperfeição da vida, para ser aceite.