A Inutilidade De Proferir Crença

No outro dia perguntaram-me acerca da minha crença em Deus. A minha resposta é privada, mas a pergunta levou-me a pensar na inutilidade da declaração de crença em Deus ou noutro poder superior.

Não vejo a utilidade de se separar pessoas em “crentes” e “não crentes.” Não é mais util do que, digamos, separá-los em altos e baixos, loiros e morenos.

Vejamos, é util separar as pessoas por afiliação, na medida em que a afiliação é resultado de uma decisão.

O problema é que “acreditar” não é uma decisão. A decisão pode ser, quando muito, “fingir em acreditar.” Mas o “acreditar” (ou não) é fruto de uma interacção entre a informação proporcionada pelo mundo, e o nosso mapa interno que faz a correspondência entre essa informação e a nossa concepção da realidade. Este processo é automático – não é uma decisão!

Imaginemos que eu me dirijo a vós, leitores, e vos informo: “O Céu é verde!”

A informação visual que vos é disponível vai contra a que eu acabei de dar. Face a esse conflito de informação, o vosso sistema vai até ao vosso mapa, para determinar qual é a fonte que é considerada mais fiável: o Luís ou o vosso aparato de processamento visual. Dependendo do que o vosso mapa declarar como a fonte mais fiável, vocês vão acreditar que o céu é verde, ou não. Em ponto algum fizeram uma decisão. Vocês não decidiram confiar mais nos vossos olhos do que no Luís. Não pensaram sequer nisso – foi um processo instantâneo.

Podem, no entanto, decidir que não querem magoar os frágeis sentimentos do Luís. Assim, decidem dizer que acreditam que o céu é verde. Mas não acreditam, na realidade. É uma preferência falsificada, que tomaram porque era o caminho para um resultado social desejável.

E não há nada de mal nisso! O Luís agradece que se compadeçam pelo seu ego frágil. Mas não mintam a vós próprios – vocês não decidiram acreditar. Vocês decidiram dizer que acreditam.

Portanto, quando confrontado com a pergunta “Acreditas em Deus?” Não percebo o interesse da resposta. Se eu acredito em Deus, ou não, está fora das minhas mãos. 

Posso mentir em relação a isso, para beneficio social, mas a minha crença ou não-crença não diz nada acerca do tipo de atitudes que tomo, das decisões que faço na minha vida, pois ela não é uma decisão. É um processo automático. 

Uma pessoa cujo mapa interno lhe diga que os seus olhos são uma fonte de informação muito mais fiável do que o Luís, nunca poderá realmente acreditar que o céu é verde, por muito que queira. 

Podíamos dizer a essa pessoa que, se ela ao menos acreditasse que o céu é verde, o mundo ver-se-ia magicamente livre de cancro, pobreza, e mortalidade infantil. E ainda melhor, a pessoa em questão receberia um trilião de dinheiros. Quem não quereria acreditar que o céu é verde, nestas circunstâncias?! 

Mas não dá. É impossível ir contra o nosso mapa interno, por muito vantajoso que seja para nós. O “melhor” que conseguimos fazer é mentir acerca da nossa crença, conforme necessário.

E se passássemos a julgar as pessoas pelas suas decisões, e não pelos processos automáticos que ocorrem no seu sistema nervoso?