O Que É A Vida


“Será isto, a vida?” Perguntou Frida. As estrelas estendiam-se até ao horizonte sob o casal, com a excepção do espaço directamente acima deles; o par estava debaixo de uma abobada de folhas de palmeira, que balançavam levemente ao sabor da brisa marinha, brisa cheirosa que não estava, nessa noite, nem quente, nem fria demais.

O seu companheiro não estava preparado. Silas precisava de clarificação: “Isto o quê?” Perguntou.

Frida suspirou, e deu mais um travo no odre. Uma gota de vinho quase tão encarnado como os seus cabelos compridos escorreu-lhe pelo queixo. De seguida, a guerreira ofereceu a bebida ao seu companheiro.

Silas aceitou, e Frida observou-o a beber.

Era tão diferente dela. Ele não engolia o vinho com paixão, não o deixava escorrer pelo queixo e cair em cascata pela garganta. Não – ele cheirava, era assim que começava a análise. Depois – ela percebia, já estavam juntos há tanto tempo – ele dava um travo e não o engolia logo, mas banhava a língua nele, remexia-o na boca. Era isso o que Silas fazia: explorar, compreender, catalogar, explicar. Era isso o que ele era.

E ela?

Ela via, determinava, planeava, lutava, conquistava. Era isso o que ela era.

Frida soltou outro suspiro.

“É parte dela, sem dúvida.” Disse Silas.

“Como?!”

“É o vale, não é? Temos tudo o que poderíamos querer, aqui, neste momento. É um momento em que não falta nada. É um momento que é eterno. Mas o valor do vale vem das montanhas – das escaladas, das lutas, das conquistas. Tudo o que poderíamos quer, temos neste momento; mas não fomos feitos para este momento. Fomos feitos para estar em movimento; não para a eternidade.”

Frida olhou para a face redonda de Silas, para os seus cabelos negros curtos que brilhavam com os raios lunares refletidos, para os resquícios da barba mal feita. E sorriu o seu sorriso maldoso.

“Tu, combates e conquistas? Os teus combates são travados entre pergaminhos, e as tuas conquistas assinadas com a pena. Onde está esse movimento de que falas? A tua vida podia ser isto.”

Silas devolveu o olhar, e o sorriso.

“Mas Frida, tenho as tuas.”

A guerreira encostou a cabeça no ombro de Silas, e fixou o olhar no reflexo na lua no oceano.

Os vales e as montanhas, pensou ela. Sim, a vida é isto. Não é nem uma coisa, nem outra. É o movimento de um para o outro. Não vou temer as montanhas, nem vou cultivar saudade pelos vales que ficaram para trás. Teremos sempre o movimento, é no movimento que conquistamos a eternidade.