A Arte e a Multidão

Adoro a idea de crowdfunding. A premissa é a seguinte: uma pessoa tem uma ideia, e expõe essa idea às massas, da melhor forma que conseguir; um plano, um video onde explica e faz visualizar o conceito, ou mesmo um protótipo.

A partir daí, as pessoas que acompanhem as plataformas de crowdfunding podem votar na idea da melhor forma possível: com a carteira. Cada interessado se compromete a pagar um determinado valor para ver a ideia acontecer; se o total de pagamentos prometidos chegar ao montante que o criador pensa ser necessário para finalizar o projecto, a plataforma de crowdfunding entra em acção e recolhe os fundos.

Criar algo custa dinheiro. Há produtos tecnológicos que exigem investimento em pesquisa e produção industrial. Mas mesmo uma produção (quase) individual, como um livro, pode ficar pronto muito mais depressa e com maior qualidade se o autor não tiver que se preocupar em arranjar dinheiro para pagar a renda. 

Normalmente, um criador procuraria empresas no ramo em que actua, para investir no projecto. Mas a verdade é que o jogo de números raramente bate certo. Um produto que tem um mercado de nicho ( digamos, 100.000 utilizadores) não vai interessar a uma companhia que se rege por produtos que vendem milhões.

O meu primeiro livro é um bom exemplo; vendi uns pares de milhares de cópias. Para uma editora, isso não é o suficiente para me dar um adiantamento para o próximo livro. Mas para mim, deixou-me sobreviver durante quase um ano, em que me consegui focar mais na escrita. Uma ninharia para uma empresa é uma pequena fortuna para um indivíduo.

É claro que as coisas nem sempre correm certo. É importante saber que quando apoiamos um projecto assim, estamos a apostar numa ideia, não a comprar um produto. Há o risco do projeto falhar. No mundo literário, não acontece tanto – os livros são escritos; podem é não ser bons. Mas numa outra área que me apaixona, a dos videojogos, é relativamente comum haver projectos que não chegam a lado nenhum – até mesmo os que são gerados no seio das grandes empresas.

Nunca tive esse azar; os meus desapontamentos no crowdfunding foram poucos, e um pouco mais caricatos. Num deles, o produto nunca chegou até mim, perdeu-se nos correios. O outro foi um desapontamento maior: o jogo Bloodstained, por um dos meus criadores favoritos, Koji Igarashi. 

O jogo em si ficou fantástico, mas sendo lançado para múltiplas consolas, nem todas as versões ficaram em condições. Eu tinha optado pela versão Switch (porque gostava da idea de o jogar numa consola portátil) e tive o azar de ser essa a versão que não foi testada adequadamente, e está cheia de problemas técnicos ausentes nas outras versões. Eis algo que muito dificilmente escaparia aos departamentos de controlo de qualidade de uma grande empresa.

Mas o saldo é positivo. Há livros que, de outra forma, nunca teriam sido escritos, documentários que nunca teriam sido filmados, videojogos que nunca teriam sido produzidos, invenções que nunca teriam saído do papel. 

Isso vale um par de desapontamentos pelo caminho.

Fotografia: gro57074@bigpond.net.au Flickr via Compfight cc