Liberdade

Não foi fácil para mim acabar a faculdade. Foi duro. 

Foi duro porque nunca me consegui motivar a estudar coisas que não podia aplicar concreta e imediatamente, e mais de metade do curriculum de medicina é acerca de preparar para circunstâncias futuras e invulgares.

Depois de me formar, lembro-me de acordar na minha cama, no meu quarto antigo na garagem dos meus pais, numa bela manhã de Setembro; olhei para o tecto branco do quarto, e pensei para comigo:

“Não tenho nada para fazer. Pela primeira vez desde que comecei a escola, não tenho nada planeado, não tenho nada à minha frente. Só tempo livre.”

A minha liberdade durou mais ou menos quinze dias, passados os quais a minha mãe perdeu a paciência e me chutou porta fora, a mandar-me entregar currículos. Obrigado, mãe.

Mas o que eu tive durante esses dias não era liberdade a sério. E hoje, que tenho o luxo de poder trabalhar a partir de qualquer lado e de ditar o meu horário, também não tenho liberdade a sério.

Uma agenda vazia não é liberdade a sério. É só um outro tipo de prisão. É uma prisão formada pelas nossas ansiedades, vícios, distracções e outras vontades. O nosso cérebro animal e caótico é um mestre tão tirânico quanto qualquer outro.

Quando não temos nada planeado, estamos ao sabor do vento. Estamos à mercê dos processos químicos aleatórios que surgem espontaneamente no nosso cérebro. Teoricamente, podemos fazer o que quisermos, mas não estamos a ser os arquitectos desse “o que quisermos.” Espontaneidade não é o mesmo que liberdade.

O que eu tento fazer hoje é: planear, mas permitir a opção. É dar-me a opção de mudar de ideias.

Com base nos meus objectivos, e no que me ajuda a relaxar, construo a minha agenda. Na minha agenda tenho períodos para trabalho, para exercício, para lazer, e para socializar. E tento ser específico acerca do que vou fazer nesses blocos – em que projeto vou trabalhar, com quem vou sair e aonde vou, etc.

Mas não trato como uma obrigatoriedade; a minha agenda dita o que vou fazer por defeito, mas não é uma tirania auto-imposta. Dou a mim próprio a permissão de optar. 

Dou-me o direito de dizer “hoje não.”

Porque a agenda é uma tirania; a falta dela é anarquia; e ambas as coisas levam à eventual exaustão mental e emocional.

Mas a estrutura, com o direito de opção – aí se encontra o meio-termo saudável. É nesse espaço entre a tirania e a anarquia que se encontra a liberdade.