Sangue e Fogo

Esta é a última parte de uma história curta. Parte 1 | Parte 2 | Parte 3

Eregar estava cansado, sim, mas não o quis revelar, especialmente porque não confiava no feiticeiro e não lhe agradava descansar perto dele. Descobriu que as suas palavras tinham sido mais verdadeiras do que tinha pensado, pois realmente o caminho a descer foi muito mais fácil, e ainda não tinha anoitecido quando começaram a caminhar por baixo da copa das árvores. O feiticeiro tocava com o cajado no chão a cada passo, mas não parecia ter qualquer dificuldade em andar.

Não tardou muito até que chegassem ao local onde Eregar tinha encontrado o lobo na noite anterior. O cheiro a morte era intenso, e enxames de moscas já rodeavam os cadáveres. O escudeiro sentiu-ser mal por se ter ido embora sem ter dado um enterro digno aos seus irmãos. Decidiu que iria fazer uma pira fúnebre antes do final da próxima noite. 

“Cria insensata! Traidor!” O rugido surgiu de todos o lados ao mesmo tempo, mas desta vez Eregar conseguiu levantar o escudo a tempo, pois viu o lobo – rápido como uma flecha – a lançar-se na direcção do feiticeiro. 

O escudeiro fez o prometido: com um grito de guerra, atirou-se contra o animal. Esbarrou nele com o seu escudo, enquanto o feiticeiro se virava. No momento em que o escudo embateu na fera, Eregar sentiu o reflexo dos poderosos músculos a empurrá-lo para trás, mas o animal também sentiu o impacto, e desorientou-se por momentos. Perdeu o equilíbrio, e foi bater de lado contra uma árvore.

“Flaeel sumpus garr!” Gritou o feiticeiro, gesticulando no ar com uma mão, ao  apontar em direcção ao animal o cajado que segurava na outra. Dele brotou uma labareda de chama que fez arder tudo no seu caminho. O lobo, ágil como era, conseguiu desviar-se, e as chamas esbarraram na árvore, tornando-a num destroço flamejante. 

As chamas não paravam de fluir pela ponta do cajado. Para Eregar, era como água a sair de um dique a romper. Mas o feiticeiro direccionava o fluxo, e a chama flamejante consumia tudo atrás do lobo. A sua pele cinza já começava a pegar fogo, e a criatura uivava com dor, mas continuava a correr e pular entre os arbustos.

“Espera!” Gritou o jovem guerreiro. “Vais fazer arder a floresta toda! E com ela, a aldeia na orla da floresta!” Disse, agarrando no ombro do feiticeiro. 

Mas quando este se voltou para ele, Eregar recuou. A sua face estava negra, e da sua cabeça calva, tinham surgido dois cornos negros. Ele era tal e qual a estátua no topo da montanha, e os seus olhos eram bolas negras que brilhavam com a chama reflectida, sem um pingo de humanidade.

“Tarde demais, criança! Que ardam todos, com as suas cinzas erguerei o meu castelo!” 

O feiticeiro voltou o seu bastão para Eregar, que ergueu o seu escudo contra a chama. O metal protegeu-o da labareda, mas em instantes começou a aquecer. O fogo parecia ter força, solidez, era mesmo como se ele estivesse a lutar contra uma corrente de água. Empurrava-o, não o deixava aproximar-se do demónio.

O escudo estava a ficar cada vez mais quente, Eregar sentia o calor na sua mão, sentia o suor a escorrer-lhe pelo corpo, mas sabia que se largasse o escudo, morreria. Se ao menos conseguisse aproximar-se um pouco mais.

Um rugido, um berro, e Eregar cambaleou para a frente, quase tropeçou. A força que o empurrava tinha desaparecido. O guerreiro arriscou baixar o escudo para observar o que se passara.

À sua frente, estavam enrolados no chão o demónio e o lobo. O lobo mordia o peito do demónio de lado, com a sua boca gigante, e este, de mãos em chamas, tentava queimar-lhe a cara e os olhos, para se soltar.

Eregar sacou da sua espada e correu para o par. No momento em que o lobo, com o focinho em chamas, largou o demónio com um urro de dor, a espada de Eregar já descia. 

A lâmina da arma do jovem guerreiro foi a ultima coisa que os olhos negros do demónio reflectiram. O metal frio penetrou no seu pescoço, e os olhos perderam o brilho. Em frente a Eregar, sem um som, o demónio prostrado transformou-se em pedra negra, e depois, desfez-se em cinzas. 

O jovem correu a ajoelhar-se ao lado do lobo, que estava deitado de lado, a fumegar das queimaduras que o cobriam.

“Estou… livre. Cria-de-homem…. Faz o que tens a fazer.”

“Não quero. Tu salvaste-me.”

“É tarde. Prolongarias… o meu… sofrimento?”

O guerreiro fechou os olhos.

“Não. Não te desejo isso. Perdoa-me.”

Eregar desembainhou a faca que trazia à cintura, e cravou-a no coração do lobo moribundo. Aguardou até ver a centelha da vida deixar os seus olhos, até ver o seu corpo parar de tremer, até o sentir dar o seu ultimo suspiro. Depois levantou-se, e com os olhos a arder, correu das chamas que os rodeavam.

À medida que se afastava, o céu começou a chorar, e ao olhar para trás, o guerreiro viu as chamas a sumir. A cicatriz demoraria anos a reparar, mas a floresta sobreviveria. 

“Perdoa-me.” Voltou a dizer o guerreiro, enquanto caminhava em direcção à estalagem de onde tinha saído a correr na noite anterior. 

Fotografia: Kaibab National Forest Flickr via Compfight cc