O Feiticeiro

Esta é a terceira parte de uma história curta. Parte 1 | Parte 2


O jovem guerreiro sentou-se numa pedra, e soltou um suspiro. Meteu a mão ao peito, sobre o símbolo da Ordem que tinha estampado na túnica. O que fazer? Era óbvio que nas semanas que ele levaria a chegar à Torre, o monstro faria novas vítimas. E depois, quem lhe garantia que o próximo grupo dos seus irmãos teria melhor resultado que este? Mesmo preparados?

Quando deu por si, o guerreiro já não estava sentado, mas avançava, de espada e escudo em riste, para o sul. O lobo devia estar a falar dos Montes-Navalha. Na região mais a oeste, as rochas tinham a cor do pôr-do-sol. E realmente, à medida que ele avançava, parecia ouvir mais e mais o pio do mocho.

Um feiticeiro! Eregar nunca tinha encontrado nenhum, nem sabia de quem tivesse – das histórias, sabia que essa espécie comungava com demónios e lia de textos proibidos. Ter que lidar com alguém assim, seria quase tão mau quanto lidar com o demónio da floresta.

Já estava a amanhecer quando Eregar começou a subir pela encosta da montanha que a floresta abraçava. O trilho de terra vermelha bifurcava-se regularmente, mas ele decidiu subir sempre pelo caminho mais largo. Não via coelhos, mas aqui e ali, via buracos que pareciam ser tocas, portanto assumiu que estava no bom caminho.

O sol estava perto da abóbada do céu quando Eregar olhou para trás e confirmou que já estava acima das copas das árvores da floresta. O manto branco de neve cobria quase tudo, mas aqui e ali espreitavam uns tufos de verde. Se esforçasse um pouco a vista, conseguia mesmo ver o punhado de casas que rodeavam a pequena estalagem de onde tinha saído a correr na noite anterior, lá ao longe, do outro lado da floresta.

Aqui, a neve já começara a derreter. A fronteira com o reino sagrado de Lohander era implacável; nestas montanhas, o Gelo só impunha o seu domínio durante a noite. Os povos do Sul nunca tinham conhecido a mordida do verdadeiro frio, e por isso, eram seres frágeis e habituados a viver em conforto. Eregar decidiu que seria cordial com o feiticeiro, mas que se este não quisesse colaborar, o guerreiro não teria problema em lhe impor a sua vontade.

Não muito tempo depois, Eregar viu o homem-de-pedra. Era uma estátua que estava no topo da montanha, de um homem com os braços abertos, de costas para o sol. Não, não de um homem – os homens não tinham cornos. Era um demónio, e em cada mão, segurava uma tocha, como se estivesse a sinalizar em direcção à lua nascente. Era grande – mais alta do que uma casa de dois andares, e tão larga como um moinho. Mais uma vez, Eregar sentiu um arrepio a percorrer-lhe a espinha. Nada de bom podia acontecer numa terra amaldiçoada por este tipo de monumento. Ainda assim, o jovem continuou a avançar, até chegar aos pés da estátua.

Lá estava um homem sentado em frente aos restos de uma fogueira, a revirar as cinzas quentes com um galho quebrado. Perto dele, estavam as carcaças fumegantes de dois lobos, um pouco mais pequenos do que o que tinha atacado Eregar e os seus companheiros. Mas não muito mais pequenos.

O homem, careca e de pele muito escura, com o corpo quase completamente coberto por um traje comprido, no estilo daqueles que usam os monges, mas de um tom vermelho-escuro que se confundia com as pedras da montanha, ergueu a cabeça e fixou o seu olhar penetrante no guerreiro. Os seus olhos pareciam mais escuros em virtude das olheiras que os contornavam.

“Bem-vindo, viajante!” Disse, com um sorriso de orelha-a-orelha, que pareceu a Eregar invulgarmente largo. “Lamento, mas já não tenho comida para partilhar. O que te traz aqui?”

“Busco um feiticeiro que me disseram que habitava esta montanha. És tu ele?”

O homem riu-se, antes de responder:

“Quem quer saber? Um feiticeiro raramente revela a sua arte, a menos que tenha boa razão para o fazer. Simplesmente perguntando, jovem guerreiro, não te vejo a ter boa sorte na tua demanda.”

“Quem quer saber é um cavaleiro da Torre.” Disse Eregar, tentando endireitar-se para parecer importante, mas não se atrevendo a dar o nome a um potencial bruxo. “E a razão é a seguinte: está um lobo grande, com sede de sangue, a matar as gentes do vale ao norte. Foi-me dito que o feiticeiro poderia curar essa sede.”

“Ah, jovem, mas fostes enganado. A sede de que falas pode ser curada, sim, mas eis a cura.” Disse, gesticulando em direcção às carcaças. “Parece que partilhamos um inimigo, um demónio feroz. E adivinho até que ele te enviou até a mim na esperança de que fôssemos precipitados e nos atacássemos mutuamente. O que me dizes, talvez, de juntar forças para livrar o mundo desta espécie?”

“Então se mataste estes dois, feiticeiro, porque precisas de mim para o outro?”

“Meu jovem, estes dois matei aqui, onde não havia refúgio para se esconderem, arbustos para contornar e me atacar de costas. O que encontraste era o líder da alcateia, mais malévolo e inteligente, e fugiu para caçar onde sabia que eu não o podia perseguir. Mas contigo, tenho mais um par de olhos!”

Viajar com um feiticeiro não era coisa que agradasse a Eregar. Mas parecia-lhe melhor do que seguir as ordens de um demónio.

“Vamos, então, feiticeiro. Se começarmos agora, chegamos antes do anoitecer.”

“Não queres descansar aqui à beira do meu fogo, jovem cavaleiro da Torre? Deves estar no teu melhor para enfrentar este demónio.”

“O caminho é sempre a descer. Não te preocupes comigo, feiticeiro. Vamos livrar a floresta deste monstro.”

“Sim,” disse o feiticeiro, outra vez com aquele sorriso, “vamos.” E levantando-se, agarrou num cajado feito de madeira negra, queimada, que usou como apoio ao começar a caminhar.