O Carreiro no Bosque Dentes-de-Navalha

O jovem guerreiro saiu da estalagem com a pressa de um homem a fugir de um edifício em chamas. Recebeu-o a noite fria e escura. Trazia um cobertor sobre os ombros, enrolado à volta do pescoço, numa tentativa de se resguardar do frio a que a falta do casaco o expunha. O suor congelava nas pontas dos seus cabelos negros curtos, criando pérolas que combinavam com os seus olhos cinzentos.

Nem o ar frio, nem a neve gelada que pisava o pareciam desalentar, da maneira como corria em direcção à floresta. Nem tão-pouco as vozes dos que o chamavam de volta, da porta da estalagem. O frio não era importante, mesmo este frio intenso no cerne da época do Gelo. As vozes também não interessavam. Pertenciam a pessoas afáveis, pessoas a quem o guerreiro devia a sua vida, mas não eram seus irmãos. Não eram aqueles que Eregar tinha abandonado no meio da floresta.

Chamavam-lhe a floresta dos Dentes de Navalha, por ombrear com os Montes-Navalha, e pela agressividade dos animais selvagens daquela região. Eregar não se cruzou com nenhum à medida que cambaleava por entre os arbustos e pinheiros até chegar ao trilho por onde ele e os seus irmãos tinham passado há horas atrás. 

As pegadas do grupo de cavaleiros ainda estavam frescas na neve. O peito doía-lhe em virtude do esforço súbito,  e à medida que o ar quente saía da sua boca sob a forma de névoa branca, também o frio entrava cada vez mais e começava a fazê-lo tremer. Mas o guerreiro ignorou a dor e o desconforto, e continuou a corrida pela floresta adentro. Até chegar à clareira.

Ali estavam – o que restava deles. Os seus irmãos tinham sido trucidados enquanto ele escapara. Eregar caíu de joelhos no gelo, e a vergonha era a única coisa que o impedia de chorar. Yingmir, Orbus, Luut e os outros, nem um sequer dos seus irmãos havia sobrevivido. Estava ali, à sua frente, naqueles metros de terra batida por entre a floresta, o cenário da maior chacina que Eregar tinha visto na sua curta carreira como Escudeiro da Torre. Aqui e ali jazia uma perna, um braço, por vezes uma cabeça. O guerreiro aproximou-se de um dos corpos mais intactos, tentando averiguar a sua identidade, mas as feridas tornavam-no irreconhecível. 

Eregar não sabia que tipo de criatura poderia ter causado aquilo. Antes, foram sombras e rugidos e gritos que o fizeram perder a cabeça, correr pela floresta adentro até tropeçar e perder consciência. Não tinha visto o atacante, mas sentira no seu âmago que não era algo da natureza. 

E agora, pensou pela primeira vez o jovem, o que quer que tenha sido, está por perto. Perto de mim, e estou sozinho.

O guerreiro sacou da sua espada. Não tinha nenhum alvo em vista, mas o brilho do aço na sua mão ajudava-o a acalmar-se. Na sua outra mão, o seu novo escudo, brilhante com os três flocos de neve da sua ordem, cruzados por um sabre, também o fazia sentir protegido. E foi precisamente quando o seu coração se começava a acalmar que ouviu o que lhe pareceu ser um riso seco e gutural – atrás de si!

Quando se virou, já era tarde demais para se desviar, e o impacto no seu escudo prendeu-lhe o braço contra o peito, ao mesmo tempo que o atirou ao chão. 

Em cima dele estava agora um enorme lobo, maior do que um boi, com uma das patas a prender-lhe o braço de escudo, e a outra, o braço de espada. O seu focinho pairava directamente acima da cara de Eregar, e o escudeiro conseguia cheirar o sangue fresco no hálito do monstro. 

Deusa, pensou ele, perdoa a minha fraqueza. Assim me vou.