O Gato Que Via

O  bazar era um turbilhão de cheiros e sons, mas Jamaal já estava habituado. Anos a viver com humanos tinham-no habituado a focar os seus sentidos apurados e bloquear aquilo que não era importante. O cheiro doce de pêssegos maduros. O ligeiro espremer da faca que cortava uma fatia de melancia molhada. Os guinchos de macacos enjaulados, e o cheiro alcoólico de licor de morangos fermentados. Tudo isto e muito mais era pano de fundo para aquilo que lhe interessava, o cheiro que ele procurava desde o dia anterior, aquela marca individual que cada ser tinha. 

Teria sido mais fácil no Reino Sagrado de Lohan, onde os únicos felinos era os gatos caseiros. Aqui, os cheiros eram muito mais difíceis de  distinguir, e o homem-tigre deu por si a perder o rasto várias vezes.

O caçador fechou os olhos, e inspirou. Era como beber uma caneca de sopa e tentar  adivinhar os ingredientes pelo sabor final. Um traço disto, um pingo daquilo, um pózinho daqueloutro. E finalmente… ali!

O caçador meteu-se por entre um balcão cheio de abóboras da cor do por-do-sol, e uma bancada com figos secos expostos para inspecção das massas de compradores. Espremeu-se por entre tigres, panteras e leões em túnica e turbante, e entrou num espaço escuro entre dois prédios, tão estreito que tinha que se deslocar de lado. 

Era quase sufocante, o aperto. Estava a aquecer, e as paredes estavam cada vez mais próximas. O calor distorcia o ar, e parecia impossível tanto Sol bater num espaço tão estreito entre edifícios. Talvez fosse uma boa altura para parar, encostar-se à parede, descansar…

Jamaal cerrou os dentes. Estava perto. Tinha que continuar. Pela Aurora.

As paredes continuavam a estreitar, eram os maxilares de um jacaré a tentar prendê-lo. O homem-tigre não parou de avançar, colocou um braço contra cada parede – o tijolo que devia ser fresco estava a ferver! Jamaal sentia os braços a queimar, sentia o cheiro a pêlo esturricado.

Não, pensou. É impossível. Só mais um pouco.

Com um rugido, o caçador empurrou as paredes para os lados, e avançou a largas passadas em direcção ao fim do corredor. Quanto mais avançava, mais distante parecia a saída, esticando-se até ao horizonte. 

“Basta de brincadeiras!” Rugiu. “Revela-te!”

À sua frente apareceu uma parede onde não tinha havido nenhuma, os seus tijolos vivos com um movimento viscoso e sons sibilantes. Serpentes do tamanho do seu braço deslizavam por cima dela, voltando-se para o tigre com olhos dourados e presas cintilantes.

Jamaal fechou os olhos, cobriu a cara, tomou balanço, e com dois passou longos, saltou contra a parede.

Os tijolos e as cobras desfizeram-se em pedaços de cristal. Os seus pés aterraram em chão fresco, e o cheiro a queimado desapareceu do seu corpo. Uma frescura invadiu-o. Jamaal abriu os olhos.

Estava num pátio soalheiro com uma grande fonte, que cuspia das suas cinco bicas água azul, cristalina. À sua volta, passavam os transeuntes de Jahaara, ocupados com os seus afazeres, como se nada se tivesse passado. Nenhum lhe tocava, todos se desviavam, mas desviavam-se como quem é empurrado pelo vento, não pareciam vê-lo, ninguém olhava para ele.

À sua frente, deitado de barriga no parapeito da fonte, com uma pata negra descaída em descontração, estava o Gato que Via.

“O que é que um ser como tu pode possivelmente temer?” Perguntou Jamaal, na sua língua natal. “Quem te assusta tanto, que te recusas a me responder?”

Medo. Não alguém, o quê. Imagens do gato. Escuridão. Uma palavra fixou-se na cabeça de Jamaal: Nome. Mais imagens: a sala onde se deu o crime, as Três sentadas com olhos severos. As portas do armário dourado abriram-se. Vazias. Uma palavra: Nome. Uma emoção: Medo.

Jamaal ficou de boca aberta. “Mas nesse armário, é onde guardam…”

Medo. Morte. Sofrimento.

“Não o podemos deixar escapar! Ajuda-me. Ajuda-me, e trazê-mo-lo à justiça!”

Uma palavra: Nome. Uma emoção: Tristeza.

Jamaal baixou as orelhas, e franziu as suas sobrancelhas farfalhudas. “Outra vez o nome. Ele sabe o teu nome… E por isso, tu não podes ajudar? O teu nome dá-lhe poder?”

Desespero, e depois, aceitação.

Jamaal cruzou os braços. Não tinha como convencer o Gato a ajudá-lo. O ser mágico, ao que parecia, só seria controlado através do nome.

Maldição! Tinham estado tão perto. Se ao menos ele soubesse quem estava a tentar incriminar Aurora…

Uma nova imagem surgiu-lhe na mente: mais uma vez, a sala da torre.

“Quem foi, está lá?”

“Miau.”

Mais uma vez, Jamaal o queixo de Jamaal caiu, e manteve-se caído. O homem-tigre olhou o gato preto nos olhos, fez uma rápida vénia, e voltou-se, a correr disparado pela rua abaixo. Não havia tempo a perder.