O Sonambulismo da Informação

“A nossa noção da realidade parece encolher em proporção direta à medida que os meios de comunicação se expandem; o mundo está aberto para nós como nunca antes, e nós caminhamos como prisioneiros, cada um na sua jaula privada. E entretanto, o relógio avança.”

Parece que foi escrito ontem, não é?

Mas não. É um excerto do texto “Acerca da Incredulidade Perante Atrocidades,” escrito por Arthur Koestler em Janeiro de 1944. O autor refere-se à capacidade fenomenal que as populações britânica e americana tinham de desacreditar naquilo que se passava na Alemanha, na Grécia, na Polónia, na França.

Há um erro no nosso sistema operativo humano. Um erro que faz com que seja difícil manter empatia a longa distância, e em grandes quantidades. O exemplo dado no artigo é que se vemos um cão ser atropelado em frente à nossa casa, ficamos mais emocionalmente afectados do que lendo no jornal que milhares de pessoas foram torturadas e executadas de formas grotescas na Polónia.

Isso não faz de nós seres imorais. Não é uma escolha. É um erro de programação. E é um erro que é ampliado pela distração, pelos megafones de informação que assaltam os nossos sentidos. Quanto mais informação recebemos no nosso dia-a-dia, mais insensíveis ficamos em relação ao que se passa no mundo à nossa volta.

E hoje, em 2019, os megafones são em maior quantidade, e de maior potência, do que alguma vez foram.

O paradoxo moderno: para estar acordado, é preciso limitar as fontes de informação.