Analógico

Ontem foi um dia feliz: o meu tio trouxe-me o gira-discos que me tinha avariado, consertado.

Claro que fiquei feliz por poder voltar a ouvir os meus vinis. Não tenho uma coleção muito grande (são caros!) mas há qualquer coisa mágica na experiência, nesta coisa de ter uma caixa que faz música a partir de um prato e uma agulha. Um trio de observações:

  1. Muito mais do que no caso de um CD ou DVD, há toda uma sensação de que é uma peça, um objecto artístico que se segura nas mãos. A dimensão do envelope de cartão, com a arte fotográfica ou pintada; o próprio peso e textura do vinil; tirá-lo do envelope de protecção. Que diferença entre isto, e tirar um disco metálico de uma caixa de plástico manhoso, ou pior ainda – carregar num botão na app da Spotify.
  2. A selecção é importante. É preciso pensar: o que me apetece ouvir? Afinal de contas, não posso mudar de ideias com um simples gesto no ecrã, ou pressionando um par de teclas no teclado. Não; mudar de ideias significa repetir o ritual mais duas vezes, uma para arrumar o disco que toca, e outra para colocar o novo.
  3. E, já agora, para alguém que trabalha ao computador e que corre o sério risco de passar um dia inteiro sentado, com breves interlúdios para fazer o almoço ou ir à casa de banho… Que bem que faz a música parar, e exigir alguns passos, a cada 20-30 minutos!

Conveniência é uma coisa fantástica, e gosto muito de ter as minhas músicas no telemóvel, de as poder levar para qualquer lado e ouvir como quiser, quando quiser. 

Mas não vale a pena fingir que não se perde nada neste mundo digital. A conveniência paga-se, e nem sempre em dinheiro.

Fotografia: artnoose Flickr via Compfight cc