Juros Compostos

Se não gostas da maneira como alguém fala, ou das opiniões dessa pessoa, ou das posições que ela toma, podes sempre protestar. Podes chamar-lhe nomes, podes explicar todas as falhas do seu raciocínio. Podes até tentar manifestar o teu desagrado aos que a rodeiam, tentar castigá-la prejudicando a sua vida.

Todas são opções válidas. Mas serão opções uteis? Mesmo que tenhas sucesso a implementar uma ou mais das estratégias acima descritas, será que vais conseguir que essa pessoa mude de ideias? Provavelmente, não. As más ideias raramente morrem. Quando confrontadas com violência, escondem-se debaixo de terra, e crescem, à procura de uma oportunidade para ressurgir.

A alternativa, é claro, é a que dá trabalho, mas funciona. Talvez consigas pôr de parte a tua revulsão perante a pessoa em questão, e ouvi-la. Ouvi-la expôr as suas ideias revoltantes, erradas e dolorosas. E talvez ouvir um pouco mais para além disso. E depois podes, humildemente, acrescentar:

“Sim, entendo porque pensas assim. E se…” 

E desse “E se…” tenta apresentar o mínimo de contrariedade possível, uma mera nota de discórdia. E resguarda a tua resposta emocional quando ela for recusada de imediato. A única coisa que isso significa é que tens que ouvir mais.

As ideias das pessoas podem mudar, sim. Mas a mudança é como a água do mar a mudar as rochas que banha.

A vantagem de cultivar tal paciência, e de suportar tanto trabalho? É que quando essa pessoa começar a ouvir o que dizes – quando já não fores um estranho(a) – ela vai mudar a sério, não vai só esconder-se debaixo da terra.

E então, vai haver mais uma pessoa no mundo pronta a ouvir os outros, e a dizer um “E se…” de quando a quando.

Pintura: “Discussão por um jogo de cartas” por Jan Steen