“Não Sejas o Mal.”

Sempre que envias um email através do Gmail, a Google lê-o.

Não é um ser humano na Google, claro; é uma máquina. 

Mas a informação da tua mensagem está a ser processada. O sistema do Google sabe que compraste um anel de casamento. Conhece os sites onde te registaste. Sabe a que pessoas diriges palavras ternas, e a que pessoas escreves com aspereza. Sabe até em que alturas do dia és mais terno, e em quais és mais áspero.

Podemos não usar o email da Google, certo? Quem o usa, sujeita-se. É o preço que paga pela conveniência de ter email rápido e grátis, certo?

Só que não é bem assim. Eu posso não usar um email da Google, mas se eu enviar o meu email a quem use, a Google vai ler o meu email na mesma. A única maneira de manter a privacidade da minha comunicação não é só não usar o serviço da Google, é não interagir com ninguém que o use.

Em tempos, a maioria das pessoas acreditou que havia um homem nas nuvens que conhecia todas as nossas virtudes e pecados, os nossos segredos mais íntimos. 

Hoje, é a própria nuvem que os conhece.

E a Google dirá que todos esses dados estão anónimizados; que estão seguros, fechados a sete chaves num cofre e codificados de forma a que nenhum ser humano os possa descodificar.

Vale a pena parar para pensar: como nos sentiríamos se descobríssemos que, quando enviamos uma carta por correio, uma máquina a abria, fotocopiava o conteúdo, e voltava a fechar e reencaminhar? Será que nos bastaria que os serviços postais nos garantissem de que era apenas a máquina, e que as fotocópias nunca seriam tocadas por um ser humano?

Todas estas defesas e seguranças podem desaparecer com o pressionar de um par de botões.

É só o Homem na Nuvem querer.

Pintura: “Júpiter Nota Callisto” por Nicolaes Berchem

A Geração de Procusto

Procusto era um dos vilões na história de Teseu. Era ele um bandido que estendia falsa hospitalidade a todos os viajantes que pelo seu território passavam.

Assim fazia: dava-lhes guarida em sua casa, onde tinha uma cama de ferro na qual os convidava a se deitarem. Mas então revelava a sua exigência: o hóspede tinha que caber perfeitamente na cama. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento; já os mais baixos eram esticados até atingirem o comprimento suficiente…

E nós hoje, quantas coisas na nossa vida não cortamos ou esticamos para corresponder às camas que são as nossas expectativas?

As nossas presenças nas redes sociais. As nossas histórias perante família e amigos. Os CVs que entregamos aos empregadores.

Queremos cortar as falhas dos nossos filhos, irmãos e irmãs, parceiros e parceiras; queremos esticar as suas qualidades.

O carro tem que ser melhor. A casa tem que ser maior. O telemóvel precisa de um ecrã mais brilhante. O ordenado maior; o tempo de trabalho, cortar.

Porque é que a medida das coisas nunca nos satisfaz?

Porque Procusto somos todos nós.

(E eis a revelação final: Procusto tinha duas camas, de tamanhos diferentes, que escolhia consoante o hóspede.)

Pintura: “Ariadne Abandonada por Teseu on Naxos” por Angelica Kauffmann

Sinal Versus Ruído

As redes sociais deviam ser uma coisa positiva. Em teoria, é fantástico estar mais a par do que se passa na vida das pessoas que nos são próximas.

Na prática, falta-nos moderação. Não só estamos a olhar para as últimas actualizações a cada cinco minutos, como pior ainda: colecionamos “amigos”, que às vezes não são mais do que pessoas com que trocamos duas ou três palavras numa qualquer situação social. Ou são colegas nossos com que não falamos nem vemos à mais de uma década; pessoas que já não têm nada a ver conosco. Ou pior: estrelas de cinema ou televisão que não gastam nem nunca gastaram um instante a contemplar a nossa existência.

E assim, as nossas redes sociais tornam-se num mar de barulho que só nos interessa tangencialmente, mas que estamos sempre a verificar. Para o caso de…

A atitude que eu tomei foi a seguinte: apaguei do meu Twitter qualquer pessoa com que não tenha tido uma conversa nos últimos 3 anos. 

Fui de seguir 266 pessoas a apenas 60. E só hoje, já vi mais actualizações interessantes – de pessoas que realmente importam – do que nesses últimos 3 anos.

Quanto aos autores dos vossos livros favoritos, os guitarristas das vossas bandas de eleição, os actores das séries que vocês mais gostam… Eles já têm a vossa atenção quando vocês consomem os produtos deles. Não lhes atribuam também a atenção que é mais bem aplicada às pessoas que fazem, realmente, parte da vossa vida.

As redes chamam-se “sociais” para ser uma extensão das nossas vidas sociais. Não para viver de forma vicária a dos outros.  

Pintura: “Júpiter, Mercúrio e a Virtude” por Dosso Dossi.