Prédeterminação

Como alguém que cresceu com videojogos, e que avançou por uma carreira de quase pura ciência antes de se voltar para as artes, sou muito apegado a sistemas. A tese básica na minha cabeça é que tudo o que acontece pode ser explicado por um conjunto de factores precedentes.

Em consequência, fico frustrado quando não consigo identificar a causa de algum problema. Não por uma questão de orgulho, de sentir a minha capacidade de raciocínio frustrada – mas porque sem identificar a causa, sinto que o problema está sujeito a repetir-se no futuro.

O problema desta tese é que não é computável pelo cérebro humano. Há factores causais que estão suficientemente distribuídos no tempo e no espaço para que eu não tenha hipótese de os incluir no cálculo. Já para não falar no caos inerente na aleatoriedade uma concepção quântica do universo. 

Por outras palavras: se eu fosse omnipotente, conseguiria saber exactamente o que conduziu ao estado de hoje; mas como sou apenas humano, há uma infinidade de factores a que não tenho acesso, e uma adicional infinidade de factores que são impossíveis de prever antes que ocorram.

E é por isso que não há alternativa à pratica da aceitação. Não num sentido passivo, de não reagir àquilo que acontece – precisamente o contrário: a nossa resposta aos eventos é a única coisa sobre a qual podemos ter controle; os eventos em si são frequentemente imprevisíveis, e, portanto, inevitáveis.

Não tinhas como evitar o que aconteceu. Mas tens o poder de tomar o próximo passo.

Pintura: “Eneias na Margem do Rio Estige” por Pietro Testa