Thanos e o Problema do Crescimento Exponencial

Spoilers para o mais recente filme dos Vingadores. Foram avisados.

Ontem expliquei porque a vitória de Thanos – e as razões para tal desfecho – fazem do último Vingadores um filme mais interessante, e mais sério. Mas é manchado por um par de factores:

  1. Este não é o fim da história, e o próximo filme certamente nulificará os acontecimentos deste.
  2. O “fim” pelo qual o Thanos se batalhou e que alcançou não faz sentido absolutamente nenhum.

Vamos começar pelo #1, que é mais fácil de explicar. 

Temáticamente, a série de filmes moderna do Universo Marvel estabeleceu um tom heróico (por oposto a trágico). 

Este filme mais recente foi uma surpresa agradável, mas sejamos francos, não faz sentido nenhum que uma série que até agora sempre terminou as suas histórias de forma positiva, se comprometesse com um desfecho trágico.  Seria o equivalente a acabar a Rua Sésamo com um funeral!

E isto não é muito mau. Eu apreciei o desfecho deste filme, mas também gosto que uma obra tenha consistência temática.

O ponto #2 é mais problemático,  pois não joga tematicamente com a construção da personagem do Thanos; um vilão, sim, mas um vilão controlado, racional e estóico.  Comecemos por uma desconstrucção passo-a-passo da demanda de Thanos:

a) A preocupação de Thanos: Que a vida no universo se está a difundir mais depressa do que o universo a consegue sustentar. O consumo exacerbado de recursos irá eventualmente resultar na extinção toda a vida.

b) A solução de Thanos: Vamos eliminar metade da vida do universo.

c) O método inicial de Thanos: Viajar de planeta em planeta e executar, aleatoriamente, metade da população. (Pouco eficiente.)

d) O plano de Thanos: Combinar o poder das Pedras do Infinito para ganhar o poder divino de manipular a realidade. Com esse poder, ele pode, com um simples pensamento (e aparentemente, um estalar de dedos) aniquilar metade de todos os seres vivos do universo. (Muito eficiente.)

A preocupação (a) parece-me legítima. Já a solução original (b) não me parece genial. Isto porque a vida se propaga exponencialmente, enquanto que os recursos que a sustentam não. Ou seja, o melhor que Thanos consegue com a sua acção de extermínio é retardar a extinção universal um googolplex de anos, mais década, menos década.

Mas tendo em conta os meios extremamente limitados que Thanos possuía (c) , eu não conseguiria encontrar uma solução melhor para o problema. É extraordinariamente mais fácil matar pessoas (temos a devida tecnologia desde que o primeiro primata agarrou numa pedra)  do que gerar recursos a uma velocidade que acompanhe ou supere o factor reprodutivo.

O problema é que (d) muda tudo. Adquirindo a capacidade de manipular a realidade à escala universal, basta um mínimo de imaginação e intelecto – ambas as coisas que Thanos tem de sobra, como provou para chegar onde chegou – para arranjar uma solução melhor do que (b).

Não há nenhuma razão lógica pela qual um ser com a capacidade de eliminar metade da vida do universo com um estalar de dedos não tenha equivalente capacidade de multiplicação de recursos. Certamente, um ser com tal poder pode criar universos paralelos vazios, prontos para colonização; ou aumentar o rácio de expansão do nosso próprio universo; ou originar novas fontes de energia tendencialmente infinitas. 

Conceptualmente, nenhuma destas coisas devia ser mais complicada do que fazer desaparecer, de forma aleatória, metade da população do universo. E não há nenhuma razão lógica para Thanos não ter a capacidade de compreender isto.

É uma pena que a personagem de Thanos tenha ficado manchada por este buraco narrativo. Um grande vilão, sim. Mas não é nenhum Ozymandias.