O Homem Zangado

Quando estava na loja do cidadão para tratar de uns documentos, vi entrar um homem que adivinhei logo que ia ter problemas.

Não sei ao certo o que me levou a pensar assim, mas arrisco dizer que foi a expressão. O homem, de fato de treino e mochila às costas, parecia acabado de sair do ginásio mais próximo, mas estava longe de trazer consigo a boa-disposição de um treino acabado. 

Entrou com um ar enjoado e impaciente – uma má forma de entrar para uma sala de espera onde estão já umas duas dúzias de pessoas. 

Porque é que assumi que teria problemas? A experiência diz-me que coisas más acontecem a pessoas zangadas. Não me vou pôr a filosofar acerca dos mecanismos pelos quais isto acontece. 

Os espirituais dirão que é o karma, os esotéricos, que é a lei de atracção, e os mais científicos, que a sua percepção e filtração dos estímulos do mundo exterior está alterada e os expõe a infortúnios de desatenção.

Eu, por minha parte, observo-o consistentemente. E isso basta-me, pois não estou a escrever uma tese; basta-me ter uma heurística que funciona e só tem que ser reavaliada depois do dia em que deixar de funcionar.

O certo é que o senhor, depois de se ter dirigido um par de vezes ao balcão para ter a certeza que não se esqueciam da senha dele, acabou por se ausentar – talvez para ir apanhar um pouco de ar fresco – no momento em que foi chamado. E quando voltou, já a funcionaria responsável se tinha ido embora, para gozar da hora de almoço.

Claro que barafustou, e chamou nomes, e disse que nada do estado funcionava, e os habituais lugares-comuns. E até podia ter alguma razão. E mesmo que não tivesse, eu gosto sempre de dar o benefício da dúvida. 

Afinal de contas, quando uma pessoa é desagradável ao pé de nós (ou connosco) não sabemos o caminho o que ela trilhou para ali chegar. Pode ter vindo de um problema sério – da doença de um familiar, de um despedimento, de um assalto em casa. 

Mas uma coisa é certa: numa sala cheia de pessoas, a maioria das quais estava lá à espera há bem mais tempo, ninguém ficou a gostar mais dele. Decerto alguns até ficaram silenciosamente satisfeitos com o seu prejuízo. Eu cresci numa geração em que estava na moda dizer que não tínhamos que nos importar com o que os outros pensam de nós. Mas não é bem assim. A vida corre melhor quando as pessoas gostam de nós. E ninguém gosta de um tipo zangado.

E ele? Terá o seu dia ficado melhor por ter barafustado, por ter gritado e chamado nomes? Não creio. As pessoas dizem que faz bem deitar as coisas cá para fora, mas a ciência não concorda – o que deitamos cá para fora define-nos, mais do que qualquer coisa. E o que nos define, repetimos na nossa cabeça. Vezes e vezes sem conta.

E com uma pessoa zangada na cabeça o dia todo, como esperar que as coisas corram bem?

Pintura: Septimius Severus e Caracalla, por Jean-Baptiste Greuze.