Forma e Conteúdo

Animé e banda desenhada são mercados vastos, mas também são nichos. Ver animé (animação japonesa, para quem não conhece) é coisa de fãs de animé. Ler banda desenhada é coisa para fãs de banda desenhada. 

Mas seria absurdo dizer o mesmo em relação a ver filmes. Quando alguém vai ao cinema, não o assumimos como uma pessoa que tem especial apreço por filmes. E nem temos uma palavra para “fã de livros” – reconhecemos que algumas pessoas têm um hábito de leitura em maior ou menor grau, ou lêem ocasionalmente, ou não lêem de todo.

Porque é que há uma diferença de percepção entre filme e animé? Entre livro e banda desenhada? A minha tese é que a maioria das pessoas não tem a certeza do que está à procura, e portanto confunde a forma com o conteúdo.

Eu sou agnóstico em relação à forma. O que eu busco são histórias. Não me interessa se essa história é transmitida através da magia do cinema, da melodia de uma opera rock, ou das mecânicas de um videojogo (artigo em inglês).

O que me interessa – se bem que não é o mais importante – é que o conteúdo aproveite a forma. Se a história beneficia do meio utilizado para a contar.

O mundo dos videojogos está pejado de histórias que seriam mais bem contadas num livro, filme ou banda desenhada, e que em nada beneficiam por ser videojogos; pelo contrário, a história, o seu ritmo, a sua cadência, ficam prejudicadas. 

Um videojogo é um meio único porque não tem necessariamente que contar uma história, pelo menos não no sentido tradicional da coisa. Tetris é um excelente videojogo, mas se conta uma história, é uma completamente engendrada na nossa cabeça – narrativamente, não é mais que um veiculo para a imaginação. 

Mas quando um jogo se foca em contar uma história, quando essa é a sua premissa central, ou uma das suas premissas centrais, então ou aproveita as características únicas do meio para o fazer, ou é uma mula digital, um bicho híbrido e defeituoso.

É muito fácil de identificar esta dicotomia nos videojogos, por serem tão diferentes dos meios artísticos habituais – e porque a maioria de quem os produz ainda falha tão espectacularmente em usar a ferramenta para propósitos narrativos, ou até mesmo em determinar qual o seu objectivo artístico. 

É preciso muito mais atenção e educação cultural nas outras formas artísticas para perceber, por exemplo, quando um filme teria sido uma melhor banda desenhada, ou uma opera teria sido um melhor animé.

Mas é uma peça a considerar, quando queremos falar acerca do valor de uma obra.

Sobre Preferências

“Não deves ter uma arma favorita, ou, já agora, qualquer tipo de preferência exagerada. Criar demasiado apego em relação a uma arma é tão mau quanto não a conhecer bem suficiente. Não deves imitar os outros, mas usar aquilo que te é adequado, e que consegues manusear com competência. Entreter preferências é mau tanto para comandantes como para soldados.”

— Miyamoto Musashi, “O Livro dos Cinco Anéis”

Como dizia Monaigne, “Amor Fati” – usa e aprecia os recursos que tens à tua disposição, em vez de ser um comediante que só sabe uma piada, um escritor que só sabe escrever quando os astros se alinham, um guerreiro que é indefeso a menos que tenha a sua arma ideal. 

Se tens muitas preferências – se só consegues fazer X quando A, B, C, D, Y e Z estão presentes –  estás a limitar severamente a possibilidade de desfrutar da vida, e a tua habilidade de criar qualquer coisa bela e útil.