Chuva à Descrição

Dias chuvosos como o de hoje são muito produtivos. Há qualquer coisa na chuva que me ajuda a concentrar.

É claro, nem todos os dias são como o de hoje. Nesses dias tenho o Rainy Mood.

(Sim, sei que esta nota se está a parecer muito com um anúncio de aspirina ou de pensos higiénicos. Mas não ganho nada com isto. É só mais um daqueles momentos em que quero partilhar uma coisa fixe convosco.)

A versão grátis é muito generosa, e nem precisava de mais, mas comprei mesmo em jeito de agradecimento. A versão paga tem outros ambientes sonoros – chuva na praia, por exemplo – mas para mim é mesmo o original que é imbatível. A única função que uso da versão paga é mesmo o temporizador. Coloco a app a funcionar para trinta minutos e vou para a cama, e sei que vai parar depois de eu adormecer. Também é bom para meditar.

Funciona muito bem com auscultadores, mas com um bom sistema de som, o efeito é fenomenal. Volta e meia, fico tentado a comprar um sistema de colunas bluetooth para o quarto de dormir, só para usar isto.

Fotografia: Gunn Shots (On and off these days) Flickr via Compfight cc

Thanos e o Problema do Crescimento Exponencial

Spoilers para o mais recente filme dos Vingadores. Foram avisados.

Ontem expliquei porque a vitória de Thanos – e as razões para tal desfecho – fazem do último Vingadores um filme mais interessante, e mais sério. Mas é manchado por um par de factores:

  1. Este não é o fim da história, e o próximo filme certamente nulificará os acontecimentos deste.
  2. O “fim” pelo qual o Thanos se batalhou e que alcançou não faz sentido absolutamente nenhum.

Vamos começar pelo #1, que é mais fácil de explicar. 

Temáticamente, a série de filmes moderna do Universo Marvel estabeleceu um tom heróico (por oposto a trágico). 

Este filme mais recente foi uma surpresa agradável, mas sejamos francos, não faz sentido nenhum que uma série que até agora sempre terminou as suas histórias de forma positiva, se comprometesse com um desfecho trágico.  Seria o equivalente a acabar a Rua Sésamo com um funeral!

E isto não é muito mau. Eu apreciei o desfecho deste filme, mas também gosto que uma obra tenha consistência temática.

O ponto #2 é mais problemático,  pois não joga tematicamente com a construção da personagem do Thanos; um vilão, sim, mas um vilão controlado, racional e estóico.  Comecemos por uma desconstrucção passo-a-passo da demanda de Thanos:

a) A preocupação de Thanos: Que a vida no universo se está a difundir mais depressa do que o universo a consegue sustentar. O consumo exacerbado de recursos irá eventualmente resultar na extinção toda a vida.

b) A solução de Thanos: Vamos eliminar metade da vida do universo.

c) O método inicial de Thanos: Viajar de planeta em planeta e executar, aleatoriamente, metade da população. (Pouco eficiente.)

d) O plano de Thanos: Combinar o poder das Pedras do Infinito para ganhar o poder divino de manipular a realidade. Com esse poder, ele pode, com um simples pensamento (e aparentemente, um estalar de dedos) aniquilar metade de todos os seres vivos do universo. (Muito eficiente.)

A preocupação (a) parece-me legítima. Já a solução original (b) não me parece genial. Isto porque a vida se propaga exponencialmente, enquanto que os recursos que a sustentam não. Ou seja, o melhor que Thanos consegue com a sua acção de extermínio é retardar a extinção universal um googolplex de anos, mais década, menos década.

Mas tendo em conta os meios extremamente limitados que Thanos possuía (c) , eu não conseguiria encontrar uma solução melhor para o problema. É extraordinariamente mais fácil matar pessoas (temos a devida tecnologia desde que o primeiro primata agarrou numa pedra)  do que gerar recursos a uma velocidade que acompanhe ou supere o factor reprodutivo.

O problema é que (d) muda tudo. Adquirindo a capacidade de manipular a realidade à escala universal, basta um mínimo de imaginação e intelecto – ambas as coisas que Thanos tem de sobra, como provou para chegar onde chegou – para arranjar uma solução melhor do que (b).

Não há nenhuma razão lógica pela qual um ser com a capacidade de eliminar metade da vida do universo com um estalar de dedos não tenha equivalente capacidade de multiplicação de recursos. Certamente, um ser com tal poder pode criar universos paralelos vazios, prontos para colonização; ou aumentar o rácio de expansão do nosso próprio universo; ou originar novas fontes de energia tendencialmente infinitas. 

Conceptualmente, nenhuma destas coisas devia ser mais complicada do que fazer desaparecer, de forma aleatória, metade da população do universo. E não há nenhuma razão lógica para Thanos não ter a capacidade de compreender isto.

É uma pena que a personagem de Thanos tenha ficado manchada por este buraco narrativo. Um grande vilão, sim. Mas não é nenhum Ozymandias.

Thanos e o Valor do Sacrifício

Spoilers para o último filme dos Vingadores. Foram avisados

A melhor coisa no último filme dos Vingadores foi que o vilão ganhou. E não ganhou por azar dos heróis, mas ganhou porque mereceu ganhar.

Thanos: Chocou um plano durante muitos anos, que executou meticulosamente, sem se deixar levar pelos altos e pelos baixos. No seu momento de maior desafio, sacrificou a única coisa que amava em prol do plano.

Os Vingadores: Passam a maior parte do tempo em guerrinhas internas, e quando se apercebem que estão tramados se não se juntarem, deixam-se guiar por um idealismo cego.

Através do sacrifício de um único dos seus membros – um sacrifício que esse membro estava disposto a fazer – os Vingadores podiam ter travado os planos de Thanos sem ele ter qualquer possibilidade de recurso.

E porque não? A história humana está pejada de sacrifícios heróicos, histórias, verídicas ou imaginadas, de pessoas que deram a sua vida para que muitos outros pudessem viver. Temos inclusive religiões construídas em torno deste tema, tão enaltecido que ele é na nossa espécie.

Mas não – a esse valor milenar, sobrepõe-se o heroísmo americano individualista, o “No man left behind.” Ou sobrevivemos todos, ou não sobrevive nenhum. O irmão que está ao meu lado é mais importante do que metade do universo.

O filme é um combate de valores: de valores “frios” como o racionalismo, o estoicismo e a persistência, versus os fogosos idealismo e a fraternidade. O resultado do combate é claro: os Vingadores perderam o seu amigo na mesma, e Thanos aniquilou metade dos seres conscientes do universo. Uma derrota absoluta para a equipa de heróis.

O idealismo e a fraternidade são valores fenomenais, e exalto-os muito. Mas não bastam para travar uma batalha. 

O sacrifício é que ganha batalhas – os outros valores podem apenas suportá-lo e dar-lhe significado.