A Passagem do Tempo

Li este ano (não me lembro em que livro) que nos devemos comparar não com o que outros são hoje, mas com quem fomos ontem.

É um bom conselho. A mensagem: não importa onde estamos, desde que estejamos a melhorar.

Mas mesmo por essa métrica, há duas datas que me custam, todos os anos. São o meu dia de anos, e a passagem de ano.

Se calhar falta-me humildade. Mas não consigo olhar para a pessoa que era o ano passado, e ficar satisfeito com quem sou hoje. Mesmo observando que estou num sítio melhor, que houve progresso – nunca é o progresso que quero. Sou um constante insatisfeito. Sinto sempre que podia ter feito melhor.

Não tenho grande lição moral a tirar disto. Prometi a mim mesmo que escreveria algo hoje, e estou a cumprir essa promessa. Se o leitor sofre do mesmo mal, lamento, mas não tenho solução.

Se lhe servir de alguma coisa, saiba que não está só.

Máscaras

O termo em voga hoje em dia é “lifestyle design”, sobretudo nos meios de comunicação online.

Há uns anos, era “desenvolvimento pessoal.” Ainda hoje são lançados livros sob essa chancela. Os livros, afinal de contas, para melhor e para pior (mas fundamentalmente para melhor) movem-se mais devagar do que a internet.

Antes disso, era “auto-ajuda.” Mas deixou de ser, porque neste mundo moderno, só os fracos precisam de ajuda.

Há muito, muito tempo – no tempo em que os animais falavam, como costumava dizer a minha avó – o termo era ainda outro:

“Filosofia.”

A arte que levava o homem a conhecer-se a si próprio, a descobrir os seus valores, o caminho pelo qual se podia orientar no mind, segundo eles.

A reputação da Filosofia foi destruída pelas escolas, mas não conseguimos passar sem ela. É importante demais, é essencial demais, é único manual (isto é, conjunto de manuais) que temos para viver.

Por isso camuflamo-la. Vestimos-lhe outros trajes, cobrimos-lhe a face com máscaras religiosas, espirituais ou mesmo comerciais (ou qualquer combinação das três) e damos-lhe outros nomes. 

E serve, vai servindo, mas perde-se sempre qualquer coisa com a tradução. Porque cada máscara vem com a sua própria bagagem.

Quantas mais disciplinas sagradas terá a escola violado?