Brechas – 1 – O Despertar de Alison

São dez da manhã. Os Rolling Stones começam a tocar. Passados quarenta e cinco segundos, uma mão envia os comprimidos que estavam na mesa de cabeceira a voar para o chão, antes de finalmente encontrar o botão de silêncio do despertador, e travar a “Paint it, Black” a meio.

Alison espreguiça-se na cama, nua sob os lençóis. A pequena morena olha de lado para a sua Carole, loira oxigenada, branca como uma boneca chinesa. A sua amante dorme em paz, indiferente ao rock matinal. Alison torce o nariz. O quarto cheira a sexo. O desconforto momentâneo fá-la suspirar, e a rapariga percebe que já não está apaixonada pela sua parceira. 

A jovem sai da cama e cambaleia em direcção à casa de banho. A caminho, pára durante um momento em frente ao espelho, para apreciar o seu corpo nú. O bronze ligeiro que complementa perfeitamente os seus cabelos e olhos negros traz-lhe um sorriso ao rosto.

O sorriso esvai-se, e Alison salta para trás, como se tivesse pisado num prego. Aqueles olhos não eram os dela. Mas eram. Agora já são, é o reflexo dela. Antes não eram… não pareciam. 

Com um calafrio fininho, segue para a casa-de-banho. 

“Tenho que me livrar do cheiro dela.”, murmura ao abrir a torneira do duche. 

Fotografia: PeterThoeny Flickr via Compfight cc