O Sonho

As patas de Aurora sentiam-se suaves contra o chão de pedra rija. Ela estava a correr, nariz rente ao chão. Com a lua sobre si, ora saltava sobre um muro, ora trepava sobre um parapeito. Era estranho, mas, ao mesmo tempo, era familiar. 

Por vezes a lua desaparecia por detrás de um dos edifícios mais altos, ou obscurecida por uma das muitas pontes que os ligavam entre si, mas a escuridão não lhe retirava o embalo. Ela sentia o espaço à sua volta, à sua frente, e não parava de correr. Continua a ser correr quando não é sobre duas pernas? 

E porquê? Ela… Ela lembrava-se de ter duas pernas. Isto não parecia… Era estranho? Mas ao mesmo tempo, era ela… Era…

Aurora piscou os olhos. A sacerdotisa estava na rua, frente a frente com um gato preto. Um gato que a fitava com um único olho âmbar brilhante: o outro estava coberto por uma cicatriz. Na noite escura, olho quase-dourado brilhava de forma intensa.

“Miaaau.” Disse o gato, e sumiu por entre edifícios. 

Aurora pestanejou, e olhou para as suas mãos. Estavam sujas, mas eram mãos, não patas. Sentia os joelhos doridos, e a luz ténue do luar não a deixava perceber bem, mas imaginava que o seu vestido de dormir estivesse esfarrapado.

Porque é que ela aqui estava? Não se lembrava de nada para além de se ter deitado quando o sol se pôs…

Reparou então que à sua frente estava um edifício invulgar. A maioria dos edifícios de Jahaara eram cúbicos e rectangulares, sempre com terraços em vez de telhados, para que os seus ocupantes se pudessem estender ao sol e ao luar. Eram relativamente rasteiros, nunca tinham mais de três andares. Já este, à frente dela, era formado por três torres geminadas, cada uma mais alta e mais fina que a outra, cada uma coroada com uma abóbada redonda.

A sacerdotisa sentiu um arrepio, e cruzou os braços em frente ao peito.

Fotografia: Little Sadie Flickr via Compfight cc