Deixando a Aldeia

Edu juntou-se ao grupo de crianças que se formara no meio da aldeia. Um par de homens que usavam casacos de pele de urso a cobrir armaduras de cabedal negro acendiam archotes e distribuíam-nas pelo grupo. Todos os rapazes eram mais velhos que Edu, mas nenhum maior do que dezasseis, e todos vestidos em tons que espelhavam os dos guerreiros. Alguns já iam à escola há muitos anos, enquanto outros tinham apenas começado o ano passado. Cada um recebia o seu archote com um ar solene.

O pai de Edu apertou-lhe o ombro. O rapaz olhou para trás viu o seu pai trocar olhares com um dos homens, dar um aceno rápido com a cabeça. O ferreiro voltou as costas para o seu filho, e voltou para dentro de casa. 

Edu começou a voltar-se para trás, queria ir atrás do pai, voltar para a mãe e para junto dos irmãos. Mas antes do rapaz terminar o movimento, chamou-o uma voz rouca, à qual o silêncio matinal conferiu a clareza de um grito:

“Aproxima-te, rapaz.”

Edu inspeccionou o homem de alto a baixo. Era mais novo que o seu pai, de olhos e barba negros, e cabelos encaracolados do mesmo tom. O rapaz sentiu um arrepio ao ver a cicatriz que lhe corria da orelha direita ao queixo, um rasgo feio e irregular. Depois o seu olhar desceu para a torre estampada sobre o seu peito direito, e seguiu para mais baixo ainda, para o machado que o guerreiro trazia preso à cintura.

“Bem!” Grunhiu o homem, ajoelhando-se para ficar mais próximo do rapaz. Os seus olhos de Edu já lhe tinham chegado às botas, e por aí se tinham deixado ficar. “Tens nome, rapaz?”

“Edu, senhor.”

“Muito bem. E sabes o que se vai passar agora? Os teus amigos mais velhos e os teus pais contaram-te o que nos espera?”

“Sim, senhor.”

“Muito bem.” O guerreiro ergueu-se e passou a mão pelos cabelos de Edu. “Temos que estar na escola ao amanhecer. Depois de teres feito o caminho algumas vezes, confia-mos-te uma tocha, mas por enquanto, concentra-te em ficar junto de nós. Aconteça o que acontecer, não te separes do grupo. Se algo surgir, usa aquilo que o teu pai te deu. Entendido?”

“Sim, senhor.”

“Certo.” O homem voltou-se para o seu par. “Boris, já está falado. Os outros, estão prontos?”

“Estão.” Disse o segundo homem, este grisalho, com uma juba que lhe cobria o casaco preto até ao peito, ocultando o símbolo da ordem quase por completo. Tinha o nariz torto e um olho meio fechado. Lembrava a Edu a imagem de um urso velho.

“Vamos, rapazes! Vamos para a escola! Em frente, em fila, dois a dois, e não se separem. Adiante!” Chamou, acenando no ar com um archote. Dois a dois, os rapazes foram avançando atrás de Boris, o urso, em direcção aos portões da vila. As botas a enterravam-se na neve a cada passo, deixando um trilho atrás das crianças.

“Tu vens comigo.” Disse o primeiro homem a Edu, ao tomar o seu lugar no fim da fila.