A Passagem do Tempo

Li este ano (não me lembro em que livro) que nos devemos comparar não com o que outros são hoje, mas com quem fomos ontem.

É um bom conselho. A mensagem: não importa onde estamos, desde que estejamos a melhorar.

Mas mesmo por essa métrica, há duas datas que me custam, todos os anos. São o meu dia de anos, e a passagem de ano.

Se calhar falta-me humildade. Mas não consigo olhar para a pessoa que era o ano passado, e ficar satisfeito com quem sou hoje. Mesmo observando que estou num sítio melhor, que houve progresso – nunca é o progresso que quero. Sou um constante insatisfeito. Sinto sempre que podia ter feito melhor.

Não tenho grande lição moral a tirar disto. Prometi a mim mesmo que escreveria algo hoje, e estou a cumprir essa promessa. Se o leitor sofre do mesmo mal, lamento, mas não tenho solução.

Se lhe servir de alguma coisa, saiba que não está só.

Máscaras

O termo em voga hoje em dia é “lifestyle design”, sobretudo nos meios de comunicação online.

Há uns anos, era “desenvolvimento pessoal.” Ainda hoje são lançados livros sob essa chancela. Os livros, afinal de contas, para melhor e para pior (mas fundamentalmente para melhor) movem-se mais devagar do que a internet.

Antes disso, era “auto-ajuda.” Mas deixou de ser, porque neste mundo moderno, só os fracos precisam de ajuda.

Há muito, muito tempo – no tempo em que os animais falavam, como costumava dizer a minha avó – o termo era ainda outro:

“Filosofia.”

A arte que levava o homem a conhecer-se a si próprio, a descobrir os seus valores, o caminho pelo qual se podia orientar no mind, segundo eles.

A reputação da Filosofia foi destruída pelas escolas, mas não conseguimos passar sem ela. É importante demais, é essencial demais, é único manual (isto é, conjunto de manuais) que temos para viver.

Por isso camuflamo-la. Vestimos-lhe outros trajes, cobrimos-lhe a face com máscaras religiosas, espirituais ou mesmo comerciais (ou qualquer combinação das três) e damos-lhe outros nomes. 

E serve, vai servindo, mas perde-se sempre qualquer coisa com a tradução. Porque cada máscara vem com a sua própria bagagem.

Quantas mais disciplinas sagradas terá a escola violado?

Brechas – 2 – O Inspector

O inspector Virgílio não estava a ter um serão agradável. Ter que acabar de jantar à pressa para investigar um homicídio não uma coisa invulgar, mas não era uma situação que melhorasse com a familiaridade. 

E o inspector percebeu que este ia ser dos piores logo ao entrar, pois ouviu um dos agentes da polícia a vomitar na casa de banho. 

O cheiro a carniça dominava este pequeno apartamento em Entrecampos. “Apartamento” era um termo generoso; era um quarto central com uma casa de banho num canto e uma divisória a limitar uma kitchenette. O ninho de amor perfeito para as duas estudantes que aqui viveriam, de acordo com o que lhe tinha sido dito a caminho.       

Só que neste momento, a polícia nem tinha a certeza de aqui ter uma estudante inteira. Um dos agentes tinha, minutos antes de ele ter chegado, encontrado metade de uma mandíbula por cima de uma das estantes de livros. Só conseguiram descobrir que era isso porque tinha a língua agarrada. Virgílio nunca tinha visto nada assim – era como se a rapariga tivesse sido atacada por um animal selvagem.

Não… Um animal selvagem não pendurava… Tiras de pele… No candeeiro do tecto, como macabras decoracões de Natal. Virgílio colocou uma luva, e puxou de leve numa, como se a tira de pele fosse uma serpente adormecida. O pedaço de pele pálida enrolou-se na palma da sua mão, manchou a luva branca de escarlate.

E… não haviam sinais de luta, para além de um espelho partido. O quarto estava encharcado de sangue e repleto de pedaços de alguém, mas nada sugeria uma luta, não havia sinal de armas, nada mais estava partido. Nem os vizinhos tinham relatado barulho – para além da música alta demais, o habitual. Não tivesse sido o sangue a pingar por entre o soalho de má qualidade para o andar inferior, sabe Deus quanto tempo teria passado até darem com isto. 


Virgílio dirigiu-se à casa de banho, depois do agente se ter recomposto. Avançou quase em bicos de pés, para tentar não pisar em nada que parecesse ter sido parte de uma pessoa. 

O inspector soltou um suspiro ao entrar no cubículo de azulejos brancos. Mãos estampadas em sangue, aqui e ali – isto era território mais familiar. As “pegadas” conduziam à pequena janela, grande suficiente para uma pessoa magra poder utilizar para sair. Virgílio espreitou por ela.

Estava a chover com muita força, quase granizo. Não havia escada de incêndio, e estavam num quinto andar.

Fotografia: Renaud Camus Flickr via Compfight cc