Auto-Estima Ou Auto-Ilusão?

Tenho uma amiga – chamemos-lhe Neuza – que se queixa de não conseguir encontrar um parceiro à altura. A Neuza tem muitas coisas a seu favor – beleza, inteligência, educação, saúde. Mas tem um grande inimigo, um conceito distorcido de auto-estima que lhe foi vendido pela industria do desenvolvimento pessoal, e por psicólogos de algibeira. 

O problema da Neuza é acreditar que “tem que se aceitar da maneira como é.” A Neuza exibe a sua solteirice com orgulho nas redes sociais, partilha posts e imagens que mostram como está bem e como é fantástica a sua vida de solteira.

Não teço nenhum julgamento valor contra quem prefere a vida de solteiro. Há benefícios legítimos e cabe a cada um decidir o que é bom para si. Mas quem está feliz solteiro, por definição não precisa de encontrar par.

É esse o grande problema da Neuza. Não querendo assumir a sua insatisfação – pois foi-lhe ensinado que é crucial estarmos felizes com a nossa situação actual – age de uma forma que cristaliza no seu subconsciente uma história, e essa história é contrária ao sítio onde quer chegar.

Este conceito de auto-estima é irresponsável e insustentável, porque funciona como travão. Se estamos satisfeitos com o que somos, com o que temos, então não há impulso para mudar. O desejo de mudança implica uma insatisfação com o estado actual.

O que devemos, isso sim, ser, é gentis connosco mesmos. Reconhecer que, não estando no sitio onde queremos estar, temos todavia a capacidade de chegar lá. Que o sitio onde estamos não é reflexo do nosso valor nem do nosso potencial, mas apenas do percurso que já caminhámos.

Internalizar este conceito não vos parece muito mais saudável do que ter uma guerra interna, perpétua, entre aquilo que desejamos e aquilo com que nos identificamos?