Nada de Génio; Apenas Louco

O homem viu a estrela. Viu-a a sério. Viu-a em toda a sua glória e desgraça; viu o génio com que brilhava, mas também as manias, as falhas, a loucura típica dos Homens Que Têm Mundos Inteiros Na Cabeça.

E o homem viu-se espelhado na estrela, e chorou. Desesperou.

Porque identificou-se com todos os defeitos, mas nenhuma das virtudes.

Uma lâmpada suja, por polir; mas lá dentro, nada de génio; apenas óleo.

(Re)Construir

À hora a que escrevo isto, as chamas ainda lambem os telhados da catedral de Notre-Dame. Mas diz-se que estão sob controle. O monumento sobreviveu. A sua icônica espira caiu, e perdeu parte o telhado; mas sobreviveu.

Sou otimista em relação à sua recuperação. As pessoas esquecem-se que vivemos num mundo de maravilhas tecnológicas. Há milhares de imagens de satélite, centenas de milhares de fotografias de alta resolução, e uma infinidade de replicas tri-dimensionais que são fieis ao edifício original até ao mais ínfimo detalhe.

Aquilo que levou mais de um século a construir, hoje temos a tecnologia para recuperar em alguns anos. Basta haver a vontade – o espírito humano, e a disponibilidade financeira. Hoje, estivemos perto de perder um dos mais belos edifícios do nosso património. Mas temos tudo para o recuperar. Conseguimos replicar a magia.

A pergunta que me incomoda mais: se damos tanto valor a edifícios assim, porque é que deixámos de os fazer?

Fotografia por Madhurantakam –  CC BY-SA 3.0

Os Macacos Dentistas do Futuro

Uma vez estive num curso em que o professor disse que, na posse do equipamento correcto, conseguia ensinar um macaco a fazer uma desvitalização.

Na altura, nós, os alunos, rimos e brincamos. Era um exagero, claro, para promover o material da empresa que patrocina o curso. Mas a ideia ficou. E hoje, acho mais razoável. O ato em si é mecânico. É preciso uma certa sensibilidade, é preciso o conhecimento de como tratar cada canal com base na forma e espessura, mas, definido o caminho, é trabalho manual.

Não conheço as capacidades dos macacos, confesso. Mas não vejo porque é que daqui a 10 anos não podemos ter um robô a fazer o trabalho de um dentista – melhor do que a maioria dos dentistas!

Isto significa que os dentistas enfrentariam o desemprego? Não; pelo menos, não imediatamente. Acho que seriam precisas mais algumas décadas até os robôs serem capazes de discernir o que fazer, em cada caso. 

O robô seria melhor que o humano em saber a pressão a aplicar, como manusear o instrumento, até que profundidade ir com segurança, a quantidade exacta de irrigação no canal, etc. Mas teria que ser o dentista a:

  1. Determinar qual seria o tratamento a executar.
  2. Especificar os parâmetros da operação (I.E.: escolher o programa adequado ao tipo de canal)

Ou seja, a profissão seria menos acerca do trabalho manual, e mais acerca do diagnóstico e da identificação do processo de tratamento adequado. O que libertaria os dentistas para trabalho mais intelectual, e lhes daria uma maior capacidade de atendimento.

É claro que isto tem um senão: em alguns países (é o caso em Portugal) já temos mais dentistas do que trabalho para eles. Então, o que aconteceria quando os dentistas com mais possibilidades de adquirir tecnologia se tornassem centenas de vezes mais produtivos, libertos da necessidade de trabalho manual?

E sendo este um problema que afecta uma classe profissional extremamente especializada, o que dizer em relação a trabalhos mais simples, como conduzir camiões ou recolher o lixo? Os robôs continuarão a precisar de um supervisor humano, mas substituirão muitos mais… Afinal, são mais eficientes, e não precisam de dormir.

A mecanização está às nossas portas. Temos que pensar seriamente numa forma de desassociar os rendimentos necessários a uma vida condigna, das horas de trabalho. Porque no nosso futuro, estão muitos robôs, e, consequentemente, muito menos trabalho para quase todos.

Fotografia: DocChewbacca Flickr via Compfight cc

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