O Efeito Tetris

Comprei o Tetris Effect, uma manobra que me é pouco característica. O desejo de ter mais jogos para jogar em realidade virtual, combinado com um forte apego à obra de Tetsuya Mizuguchi, levou a melhor.

A primeira impressão é que falta qualquer coisa. É estranho ver uma celebração que evoca tão pouco do espirito do original. Estava à espera de ver alguma referência àquela musica icónica, qualquer efeito pirotécnico que soubesse a russo. Qualquer coisa que me avivasse a memória de ser hipnotizado por aquele jogo tão simples mas tão diabólico, em frente ao Amiga 500 do meu primo.

Mas em vez disso, esta é uma celebração de globalismo, de ritmos brasileiros e africanos e do espirito de discoteca europeu com que eu cresci e mais uma pitada dos ambientes sonoros asiáticos à mistura. 

O jogo Tetris aqui não é o centro da atenção; é a ferramenta que nos transporta numa viagem audio-visual em torno do mundo, pelas profundezas do oceano, e, ocasionalmente, para lá do planeta. É um espetáculo de metáforas sonoras, visuais e culturais em que a unidade de ligação é o jogo Tetris. 

E de certa forma, faz sentido. Tetris é um dos poucos jogos que se pode gabar de ser um fenómeno mundial. Já quando foi lançado na sua famosa encarnação GameBoy, foi um dos jogos que conseguiu apelar a milhões fora daquele circulo restrito dos “fãs de video jogos.” Ainda hoje, poucos foram os jogos que conquistaram tal façanha, e, se os entendidos na matéria podem debater as virtudes artísticas desses outros jogos “para todos”, as credenciais de Tetris são inabaláveis. É um jogo inesquecível, inesquecivelmente viciante, e forte candidato ao título de melhor jogo de sempre.

Que melhor jogo para nos levar a dar uma volta ao mundo, do que um dos poucos que foi jogado e amado em todos os países, por todas as culturas?

O que Mizuguchi conseguiu aqui fazer é o que o distingue como um artista, por oposto a um mero criador de jogos. Ele conseguiu ver para lá do jogo, das componentes estéticas e mecânicas, e entender o que é que o jogo significa num contexto cultural, no contexto da experiência humana. De seguida, retratou isso mesmo no seu tributo.

Continuo a sentir falta daquela iconografia e sonoridade russa. Mas foi uma viagem e pêras.

Cuidado com o conhecimento que não conquistaste

Ele tinha merecido o conhecimento, golpe de espada a golpe de espada, feitiço a feitiço, conquista a conquista. Não era algo que tivesse herdado, algo que visse como seu direito por nascença.

Era algo que ele entendia, e isso separava-o dos jovens príncipes Mogu que observavam o seu domínio. Como ele entendia o conceito, conseguia aplicá-lo. Sentia-o como os movimentos das marés. Já eles olhavam de cima, viam o que queriam ver, ouviam o que queriam ouvir.

— Shadows of the Horde por Michael Stackpole

É esta a diferença entre possuir algo e conquistá-lo. O que é recebido de mão-beijada raramente é valorizado, não por desrespeito, mas por ignorância.

Aqueles que conquistam as coisas conhecem a sua complexidade.

Coisas Começam a Despertar

O teu pai pouco te ensinou, criança. Tens vivido nesta ilha, ignorante ao mundo para lá do mar e ao que se passa nele. Mas há coisas a acordar para lá do Sol nascente, coisas que começaram a despertar antes mesmo de teres nascido, e que cada vez mais se rebolam, se mexem, como tu por vezes demoras a sair da cama, a largar o sono preguiçoso. 

Mas estes seres – monstros, espíritos, criaturas, deuses, o que lhes queiras chamar – estes seres dormiram durante gerações, e o seu despertar foi lento. Foi lento, mas está a chegar a vias de facto. E nós, pobres, pequenos, frágeis humanos… Nós vamos ter que aprender a viver neste mundo novo.”

— As palavras da hermita Treia no despontar do último ano do Gelo Negro, conforme registadas no diário de Helena, a primera Arqui-feiticeira.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.