A Ferramenta do Mundo Moderno

Às vezes caio no erro de pensar que mexer num computador é o mesmo que saber ler e escrever. 

A minha vida é uma vida de videochamadas, de atalhos de teclado, de navegação em mundos tridimensionais, de processamento de emails e mais uma dúzia de tarefas que exigem o domínio de uma mão-cheia de programas e aplicações.

É fácil pensar que isto é o normal. Mas não é. Na escola passamos anos a aprender a ler e escrever, a multiplicar e dividir. Mas as aulas de informática duram dois anos no máximo, e pouco ensinam para além do processador de texto. 

A verdade é que quase todas as pessoas sabem pesquisar no Google, mas nem todas o sabem fazer de forma eficiente. Nem todas sabem usar um navegador para mais do que ler um site.

No entanto, estas valias são tão importantes para a vida de uma pessoa adulta no mundo moderno, como saber ler e escrever.

Ler é uma ferramenta. Escrever é uma ferramenta. Matemática é uma ferramenta. E a literacia informática é uma ferramenta. E é tão poderosa como as outras três.

Fotografia: Thomas Hawk Flickr via Compfight cc

A Viagem e o Final

A maior parte dos livros tem uma moral (ou sugestão de acção) passível de explicar em duas páginas ou menos.

Então, porque é que se escrevem livros?

Porque aplicar uma solução sem compreender como se chegou a ela é o que fazem os robôs. E às vezes, isso é suficiente; às vezes, só precisamos de saber que peça usar, que linha de código escrever, e que ingrediente escolher.

Mas a maior parte das vezes, não; o raciocínio é precioso, porque nos ajuda  a tomar uma decisão em condições que são semelhantes mas não exactamente iguais às descritas no cenário original. Conhecer o caminho ajuda-nos a criar adaptações.

Mesmo que raciocínio não seja necessário para assimilar a solução, o contexto pode ser. Um excelente exemplo disto é “O Alquimista,” de Paulo Coelho. Tudo o que o livro tem a dizer, é dito na última página. No entanto, se pularmos para a ultima página sem ler o resto do livro, vamos achar que é um lugar comum; sabedoria de algibeira.

Ás vezes, é preciso viver os desafios para integrar a solução.

Os livros dão-nos a oportunidade de os viver sem os sofrer.

Fotografia: Pamela P. Stroud Flickr via Compfight cc

Dinheiro e Percepção

“Um dia, Yahya estava em viagem com o califa Harun Al-Rashid. Um homem apareceu diante do califa e disse-lhe: “A minha mula morreu”. Ao ouvir isso, o califa ordenou que o pobre homem recebesse quinhentos dirhams.

Mas Yahya sinalizou ao califa para desmontar e depois levou-o para o lado. 

“Pai!” Disse Harun. “Fez-me um sinal sobre algo que eu não entendo.” Yahya respondeu: “Um califa nunca deve se rebaixar a mencionar uma quantia tão pequena de dinheiro, até mesmo como presente. Quando é necessário dar, é melhor dar cinco mil ou dez mil. 

Harun perguntou-lhe: “Então, o que deveria eu ter feito nesta situação?” Yahya disse: “Ofereça-lhe simplesmente uma mula nova.”

 — A Sabedoria e Generosidade de Yahya Ibn Khalid (Inglês – Tradução original por Quintus Curtius)

O valor do dinheiro é diferente para cada um de nós. É por isso que um presente de dinheiro é ingrato: é raro a nossa percepção do valor corresponder à percepção da outra pessoa.

A generosidade monetária de um homem pode assemelhar-se à avarice de outro; e, mesmo que ambas as partes fiquem satisfeitas com a dádiva, o julgamento dos que a testemunhem é sempre uma incógnita.

Mais sensato, portanto, é descobrir o que é que a outra pessoa deseja, e, estando dentro da nossa possibilidade, oferecer isso.

Nem mais, nem menos; a arte da generosidade é uma arte que exige medidas certas.

Fotografia: stephenbarber Flickr via Compfight cc

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.