Fole

Não poderá o espaço entre o céu e a terra ser comparado a um fole?

Se esvazia, e no entanto não perde o seu vigor;
Se manuseia novamente, e eis que expele ar mais uma vez.
Muita conversa, à rápida exaustão vemos levar;
Guarda o teu eu interior, e mantem-no livre.

— Fracção do Tao Te Ching, parte 5

O difícil não é escrever todos os dias. Qualquer um sabe escrever, tal como qualquer um sabe falar. O difícil é bater nas teclas (ou abrir a boca) e fazer sair algo de valor. A “escrita fiada” é onde muitos tropeçam.

O escritor tem que expôr o seu eu interior. Arrisca-se a ser mal interpretado, ou às vezes, ainda pior: a ser plenamente entendido, e julgado inadequado. Mas fazer qualquer outra coisa? É escrita fiada.

Resoluções de Ano Novo

Resoluções de ano novo são uma coisa muito clichê. E o mais comum é que fiquem por cumprir. Mas não é parvo fazê-las. É melhor ter um objectivo e falhar do que não ter nenhum. 

É claro, a tomá-las, mais vale tentar criar condições que nos dêem alguma hipótese de as cumprir. Nem sempre essas condições são obviais, e certamente não serão iguais para todos. 

Conheci uma rapariga que tomava as decisões de ano novo não no final do ano, mas no seu dia de anos. Para ela, era aí que o ano começava. Achei que era uma atitude deliciosamente egocêntrica, mas se funcionava para ela, quem sou eu para discutir?

Não quer dizer que seja o vosso caso, mas pode ser. Eu escrevi as minhas num bloco de notas há um par de dias, enquanto esperava por um amigo para tomar um café. Na altura nem pensei nelas como resoluções de ano novo, estava só a pensar em coisas que gostava de fazer/mudar. Mas depois lembrei-me que era Dezembro, e que o espaço de um ano é um período de tempo catita para medir objectivos, portanto, porque não?

Na realidade, é difícil ganhar prática em algo que só se faz uma vez por ano. Quem só escreve os objectivos uma vez por ano, é normal que não os alcance. Provavelmente nem tem uma boa noção do que é alcançável.

Portanto agora é uma boa altura para começar a praticar para o final do ano. E depois em Janeiro talvez seja uma boa altura para os rever! E assim por diante…

Matemática

Estive a ver um documentário sobre os serviços secretos de Israel. Fiquei impressionado como os sucessivos chefes da organização, todos a favor da paz e do diálogo até mesmo com os mais inflexíveis inimigos, se tornam imediatamente calculistas quando estão vidas em jogo.

O líder de uma célula terrorista está num prédio com a sua família. Está um míssil a postos para destruir o edifício. Mas há vizinhança. É um bairro habitado. Há o risco de pessoas inocentes perderem a vida.

“Quantas?” É a pergunta que fazem estes homens. O que estão eles a tentar determinar? Se serão essas vítimas inocentes mais ou menos do que o número de inocentes que futuros atentados terroristas poderão matar. 

É um dado adquirido que morrerão inocentes – pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs. A questão é: morrerão mais se o gatilho for apertado, ou se não for?

É matemática.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.