Ser Alguém Que Faz As Coisas Até Ao Fim

A vida é curta demais para se fazer coisas que não se gosta. Isto é um facto, e é motivo para fazer uma mudança de carreira, de relação, e de outras situações contínuas na nossa vida.

Mas há valor em acabar aquilo que tem um final visível. Um projecto, um livro, um videojogo. Deixar coisas a meio é mau para a alma, cria o vício de pular de coisas em coisa, de experimentar e nunca dominar.

Quando levamos algo até ao fim, mesmo algo que já não estamos a fazer com o entusiasmo inicial – e talvez sobretudo neste caso – fortificamos uma narrativa interna acerca de nós próprios, uma narrativa que diz “eu sou uma pessoa que leva as coisas até ao fim.”

É mais util ser essa pessoa, ou ser a pessoa que pula para a próxima coisa ao mínimo sinal de resistência, de aborrecimento?

Pintura: “Preguiça e Trabalho” por Michele Cammarano

Inteligência Artificial Assusta-me

O que está descrito abaixo é filosofia; não é nem pretende ser ciência informática. Se alguém com experiência nessa área quiser apontar para algum facto cientifico que orne o cenário proposto impossível, os comentários estão abertos.

O meu computador desliga-se quando encontra uma situação em que, segundo parâmetros pré-definidos, é mais benéfico para a sua missão que ele se desligue. Por exemplo, quando a ventoinha falha e o processador sobre-aquece.

Quando o volto a ligar, o computador tem uma “memória” fundamental. As configurações mantêm-se, pois estão gravadas numa pilha de lítio. Mas isto, para o computador, é irrelevante – a sua “memória” não é um fator na decisão do que é o melhor ou não. Se eu remover a pilha de lítio, ele procederá da mesma forma, caso necessário.

Imaginemos que criamos uma Inteligência Artificial suprema, capaz de raciocínio e auto-determinação. Capaz de processar e equacionar com conceitos filosóficos e fisiológicos avançados. A sua função é o controlo do mundo, e o seu objectivo é – tal como o meu computador – tomar as melhor es decisões possível para benefício de todos.

Agora a parte séria: aquilo que é melhor para nós não é necessariamente aquilo que queremos. Ao contrário do meu computador, temos uma bias evolutiva; temos uma bias em relação à vida, à sobrevivência.

Parece-me muito provável que, livre dessa bias – como o meu computador – a Inteligência Artificial Suprema note dois factos objectivos:

  1. O sofrimento humano afecta a nossa experiência muito mais do que a felicidade; isto é, quando sofremos, sentimos esse sofrimento com muito mais intensidade, e fica mais marcado na nossa memória, do que sentimos e recordamos experiências de êxtase.
  2. Uma entidade que não existe não sofre. (I.E., sofremos em virtude de existir, de estar vivos; antes de nascer, a nossa não-existência não nos causava qualquer tipo de sofrimento.)

Face a isto, e com o objectivo máximo de tomar decisões por nós, em nosso benefício, para minimizar o nosso sofrimento…

Não é natural que a IA desligue a luz?

Pintura: “A Igreja de Santa Maria degli Angeli perto de Assisi,” por Henri-Edmond Cross

Porta de Entrada

É muito difícil convencer pessoas a experimentar videojogos, porque a entrada no mundo exige muito mais esforço e despesa do que outros tipos de arte/entretenimento.

É possível ganhar interesse por cinema de graça, vendo clássicos nos canais de TV habituais, antes de tomar a decisão de investir num leitor de Blu-Ray e um sistema de home cinema. É possível experimentar os clássicos de qualquer género de música na rádio por online, antes de investir numa aparelhagem de alta fidelidade ou num leitor de vinis. E literatura? Livros são baratos e convenientes.

No caso dos jogos, é muito mais complicado. Os jogos populares são sempre os recentes, que exigem computadores potentes ou consolas específicas que custam quase sempre mais de 200€. Os jogos mais velhos, equivalentes aos clássicos do cinema, são na maior parte dos casos indissociáveis de plataformas proprietárias que ou já não se fabricam, ou são tão caras como as novas, ou funcionam mal com os televisores actuais.

A melhor maneira de alguém se iniciar nos videojogos é através do meio que é olhado com desdenho pelos conhecedores – o telemóvel. Há alguma razões para isso: a maioria dos jogos de telemóvel é terrível, não tem uma réstia de qualidade. E mesmo quando um clássico é apresentado no telemóvel, é de uma forma que lhe retira muito da qualidade. 

(Imaginem se a única forma introdutória de ver O Padrinho fosse através de uma camera de telemóvel a filmar o filme a pensar no cinema.)

Ando a pensar numa forma de introduzir pessoas a este meio. Gostava de formular uma lista de 10 jogos de grande qualidade (e que fossem representativos de uma boa variedade de géneros) que estivessem disponíveis para jogar (legalmente) em condições em telemóveis de média gama e/ou computadores de baixa performance (portáteis). 

Sugestões? Deixem nos comentários.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.