Aquele Que Traz a Luz – Apontamentos da Guerra Entre a Religião e a Ciência

Há uma guerra fria entre a comunidade religiosa e a comunidade científica. É verdade que quase toda a gente religiosa usufruí dos frutos da ciência. Também é verdade que uma fatia decente da comunidade científica se revê em preceitos religiosos. E ainda assim, volta e meia há um burburinho de descontentamento, uma fricção que parece dizer:

“Não dá para estas coisas co-existirem. Um mundo de conhecimento científico não admite o misticismo da religião.”

Já a perspective religiosa, especificamente a da tradição Abraâmica, afirma que a ciência é fonte de corrupção, que afasta os homens de Deus e os entrega nas mãos do Inimigo.

(Ironicamente, afirmarão isto na sua página de Facebook.)

O lado religioso do argumento devia ser mais “crescido” e introspectivo – como se deve esperar de uma corrente filosófica com uma tradição de milhares de anos. A ciência é um bebé comparada com a religião.

Falta humildade à comunidade científica. E falta maturidade à comunidade religiosa.

Será cânone, o desprezo da ciência por parte da religião? Nem pensar! O anjo com esse pelourinho, o anjo da razão, da ciência, da verdade – “Aquele que traz a luz”, “A Estrela da Madrugada” – era o braço-direito do Divino, antes de se rebelar e ser deposto por Miguel.

Pensemos nisso. Lúcifer é uma figura Prometeica. É “Aquele que traz a luz.” Se era o anjo mais alto da hierarquia divina, se era o braço direito do próprio Deus, a ideia que fica é que a razão, a racionalidade, a busca pela verdade – que são os conceitos que coalescem no nascimento da Ciência – eram as ferramentas preferidas para o Divino exercer influência sobre a Terra. É isso que “braço direito” significa. A Ciência caminhava com Deus.

Vamos transpor a metáfora para um conceito mais secular. A cada um dos anjos mais altos corresponde uma virtude. Tomemos a Razão como a virtude Luciferiana. A posição de Lúcifer faria da Razão a mais elevada das virtudes.

Lúcifer passou a ser o Inimigo quando se apaixonou por si próprio, pela sua razão – quando achou que não precisava de nada externo a si próprio para vingar na existência.

Miguel confronta Lúcifer.
O arcanjo Miguel a expelir Lúcifer do Céu. Notem que Miguel é o general dos exércitos de Deus, mas representa também a empatia, a confiança nos outros. A mensagem é de equilíbrio: poder sem empatia é tirania; bondade incapaz de se defender será corrompida.

A queda foi precipitada por arrogância, por uma idea de que “Eu tudo sei, e nada que exista que eu não saiba, vale a pena saber.” Não foi a busca pela verdade, a capacidade de raciocínio que precipitou a queda – foi o orgulho que surgiu de ter o domínio sobre ferramentas tão poderosas, o orgulho de achar que tudo no universo podia ser explicado e controlado pelo seu conhecimento. A partir desse momento, achou-se igual ao Divino.

(Um aparte: qualquer pessoa que possua um módico de inteligência, associada a um pouco de capacidade introspectiva, consegue rever-se neste “pecado.” Este conceito está codificado na nossa cultura numa miríade de formas e expressões: “Com grande poder, vem grande responsabilidade.” “O Poder absoluto corrompe absolutamente.” Etc.)

É isto que é o mais importante na história: Lúcifer não caiu por excesso de virtude (excesso de Razão). Lúcifer caiu porque se afastou das outras virtudes.

Em termos seculares: o perigo não é um “excesso” de ciência; não é um “domínio” de ciência.

(Porque não haveria de ser preponderante na nossa sociedade, a ferramenta utilizada pelo braço direito de Deus?)

O problema é a Razão, a racionalidade, quando afastada das restantes virtudes – Prudência, Temperança, Coragem, Justiça (e Fé, Esperança e Caridade/Amor, se quisermos ir por arcanjos).

A sequência dos eventos é importante! Não foi o Demónio que caiu. Foi a Queda que criou o demónio. A demonização da Razão, da Ciência, é função do quão afastada ela está do Divino, das outras Virtudes. Não daquilo que ela é.

É claro, há um conflito, há uma dicotomia entre o mundo espiritual da religião e o mundo objectivo da Razão. Mas elas estão intrinsecamente ligadas. Foi essa uma das bases que Nietzche usou para prever a decadência do Cristianismo: que a religião empunhava a espada da Verdade, e que sobre ela caíra e se tinha ferido mortalmente.

A busca pela Verdade (a Razão) pode ferir a componente espiritual da religião. Mas sem ela, está desarmada – não tem a sua espada, não tem o seu braço direito, a sua Estrela da Madrugada (que é, já agora, um sinal de esperança, de recomeço, do novo dia).

Portanto aqui fica a minha sugestão…

Aos Religiosos: Não subestimem o valor que a progressão científica tem para acrescentar à obra do Divino. É uma ferramenta por Ele criada; é a forma mais honesta de explorar a Criação. Não a afastem, isso é perpetuar a Queda. Tragam-na para junto das restantes virtudes.

Aos Científicos: Não se apaixonem pela vossa própria racionalidade. A ciência é mais pura, rica e recompensadora quando parte da premissa que está errada. Podemos almejar a querer saber tudo, mas temos que estar conscientes de que não sabemos quase nada. Há muito na experiência humana para além do que pode ser desvendado pela Razão – talvez um dia isto deixe de ser verdade, mas não estaremos nós vivos para ver esse dia.

O que faz o demónio não é sua capacidade de racionalizar, a sua intelectualidade. É a sua distância do Divino – das virtudes. Nós caímos quando nos apaixonamos pelas nossas próprias capacidades, em detrimento de tudo o resto.

Uma Imaginação Fértil

Nem todos somos escritores ou pintores ou cineastas, mas quase todos temos uma imaginação fértil.

Vemos uma mulher a tomar café com um homem que não é o seu marido – ou vice-versa. Isso é o que vemos. O que entendemos é que está a trair.

Sentimos uma pontada no nosso coração, um aperto no peito. Isso é o que sentimos. O que entendemos é que estamos terrivelmente doentes, que vamos morrer.

Ser pragmático não é aceitar as coisas superficialmente (se temos dúvidas, devemos procurar esclarecê-las). Ser pragmático é não criar histórias na nossa cabeça, a partir de observações casuais.

A superfície do lago é o presente, é o que vemos, é o que sabemos de certeza. O que está debaixo é o incerto, o desconhecido, o que está escondido nas profundezas. Pode ser a verdade, pode ser o futuro – mas o mais provável é que seja apenas água.

imaginação-fértil

 

O Monge Que Vendeu A Sua Colecção de Videojogos

Costumava eu deliciar-me em ir a uma loja onde vendessem videojogos. Desde miúdo que os adoro – desde que o meu tio me sentou em frente a um ZX Spectrum e lá meteu uma cassete a fazer aqueles barulhos estridentes e riscas coloridas no ecrã, que depois por magia se transformavam num Batman baixo e gordo que tinha que escapar de um labirinto, ou numa nave espacial a disparar contra exércitos de fénix.

Mas gostava não só de os jogar mas de lhes tocar, de procurar por eles entre as prateleiras. Era quase como a experiência religiosa de ir a uma biblioteca – estar rodeado por possibilidades infinitas, pelas palavras e histórias de pessoas desfasados no tempo e no espaço. Cada jogo, como cada livro, era um universo de possibilidades.

Era um gosto especial passar os dedos por entre as caixas, à procura de alguma pérola desconhecida que pudesse estar perdida por entre os caixotes de promoção da FNAC, ou de um jogo antigo que tivesse escapado aos colecionadores que pareciam viver dentro das Cash Converters de Lisboa. 

Mas não era só uma questão de descoberta. Era giro mexer nas coisas, bolas! As caixas tinham uma personalidade, sim, mas o conteúdo também tinha. Dava a sensação de que vivia qualquer coisa lá dentro, que dentro daquele cartucho ou CD ou DVD vivia uma obra tangível, traduzida por 0s e 1s, correcto, mas de certa forma tão presente como as palavras dentro de um livro.

Fui há uns dias à FNAC e lancei-me durante alguns minutos na exploração das prateleiras de videojogos. Mas já não é a mesma coisa. Já é tudo conhecido, já nada chama a atenção. O conteúdo sente-se estéril. Em meros segundos, senti um enjoo profundo por estar a passar os dedos pelas caixas de videojogos. 

Este não interessa. Aquele é uma reedição. Tenho este em casa para jogar à anos. Quando decidir jogar este, posso comprá-lo online; escuso de gastar o dinheiro agora e arriscar-me a deixá-lo numa prateleira a ganhar pó.

O meu amigo Daniel gosta de dizer – e com razão, porque é um gajo inteligente e ao contrário da maioria das pessoas, lê os contratos de licença de utilização até ao fim, mesmo a letra miúda – que os jogos que compramos em formato digital, que pagamos e fazemos download, não nos pertencem a sério, nos podem ser retirados a qualquer momento. Ele tem toda a razão, mas é uma verdade técnica. Na prática, podemos até ser mais donos de um jogo que compramos na FNAC ou na Amazon, mas somos donos do quê? De um pedaço de plástico. 

Colecção de Videojogos
O Sonho.

Um livro é uma coisa diferente. Não preciso de tecnologia mais complexa do que um par de óculos para poder desfrutar dele. Nem se trata de uma questão de ser “dono” ou não. O que é ser dono de um livro? Sou dono das palavras que lá estão escritas? Sou dono das palavras de Jane Austen, Dostoevsky, Nietzche? Que conceito ridículo! Tenho acesso aos pensamentos, ao imaginários dessas pessoas, sou dono desse (limitado) acesso. No entanto, as palavras estão lá, posso folhear o livro, posso sentir o cheiro, posso criar marginalia. 

O que é um videojogo, em formato físico? É o mesmo que um download, que foi gravado num disco numa fábrica algures na china, guarnecido numa caixa de plástico com uma folha colorida impressa, e me é vendido sobre o pretexto de que sou “dono” dele. 

Sou dono de uma coisa incompleta, pois o jogo de hoje vai ser actualizado através da internet várias vezes ao longo da sua vida. Sou dono de uma coisa perenemente desactualizada, pois quando for lançada a nova consola, vão relançar o jogo – ou um jogo quase idêntico – com melhores efeitos visuais, som, e sistema de controlo. Sou dono de uma coisa que dentro de dez anos, entre encontrar a consola em que foi lançada, ligá-la a um televisor, ter a sorte de que funciona, ter a sorte de que não seja precisa uma actualização pela internet, que o jogo procura em servidores há muito desactivados… Esqueçam! Mais vale comprá-lo outra vez, descarregá-lo por 10 euros através da internet, e jogá-lo sem chatices.

Há videojogos que valem a pena jogar. São muito poucos, quase nenhuns, mas tudo bem, isso não é nenhuma desonra. Também a maior parte dos livros são maus, a maior parte dos filmes são péssimos, a maior parte da música é barulho. É difícil fazer arte, é difícil contar histórias. 

No caso dos videojogos, não vale a pena ser dono deles. É uma luta perdida. Mais vale a apreciar as obras en passant, de visita, como se aprecia uma pintura num museu, como se aprecia um filme no cinema, como se aprecia uma banda num concerto. Ser colecionador de livros é ter uma biblioteca. Ser colecionador de pinturas é ter uma galeria. Ser colecionador de videojogos é ter uma pilha de plástico.